por Teresa Perrotti
Esse post comenta a peça “Foi enquanto eu esperava um livro de Maiakovski que tive uma epifania sobre a revolução” do Grupo Pano, que esteve em cartaz no Tusp Maria Antônia do final de junho até meio de julho de 2026, sob o ponto de vista das sonoridades presentes nela.
A peça narra a história de quatro camaradas que estão confinados em uma célula revolucionária e que esperam a chegada de um livro de Vladmir Maiakovski, enquanto discutem e refletem sobre maneiras de realizar a revolução socialista no Brasil, ao passo que vão sendo questionados, e se questionam, por diferentes figuras absurdas que aparecem no decorrer da peça, sobre sua própria atitude revolucionária.

A sonoridade dessa peça tem um papel central para o desenrolar da narrativa, visto que além de costurar os diferentes momentos e ações da história, ela também escancara a mensagem que a peça pretende transmitir. O som tece durante a apresentação comentários críticos, irônicos e dramáticos sobre as atitudes dos personagens, criando uma atmosfera épica e lúdica que ajuda a dramaturgia a caminhar para a revelação do final da peça.
Uma característica sonora que me chamou atenção, foi a voz e fala dos personagens em cena. Além de cada personagem ter uma voz marcante e específica que ajuda a criar as figuras que estão sendo representadas, existe uma grande diferença entre as vozes dos personagens mais lúdicos e fictícios, dos personagens mais cotidianos e realistas.
Os quatro camaradas possuíam vozes bastante anasaladas, rápidas e em sua maioria em tons mais agudos, além de seus diálogos terem um ritmo muito marcado e fora da fala cotidiana, o que gerou em alguns momentos dificuldade de entender o que estavam dizendo. Em alguns momentos, os atores faziam uma quebra e agiam como “personagens atores”, mas ainda dentro da ficção da dramaturgia, entretanto suas vozes e a forma que emitem suas falas mudava drasticamente, principalmente os aspectos do timbre, duração e intensidade. Falas que antes eram ditas rapidamente agora soavam em um tempo comum de conversas cotidianas, as vozes anasaladas e estereotipias da atmosfera clownesca sumiram e foram substituídas por vozes mais suaves e a intensidade na qual eram ditas as falas também se alterava: falas que antes soavam em intensidades fortes ou fortíssimas agora estavam no plano do médio piano.

Penso que essas mudanças de características da voz e da fala trouxeram, além de uma clara mudança de personagens, também uma mudança de comportamento e atitudes destes. Enquanto os camaradas tinham muita certeza de suas ideias e queriam propagá-las para o mundo todo, os “personagens atores” tinham muita dúvida de suas ações e até mesmo de sua própria identidade, o que se refletia em suas vozes e diálogos.
Um trecho do livro “A música e sua relação com o ser humano” de Marcelo Petraglia (Editora OuvirAtivo, 2010) fala sobre isso: “A intensidade é também a expressão de uma qualidade emocional. Sentimentos transbordantes normalmente se traduzem em tons fortes, enquanto sentimentos mais íntimos e delicados, em pianos.”. Essa distância do modo de falar também acontece entre os camaradas e personagens mais comuns do “mundo real” como o carteiro, que entra em cena para trazer uma encomenda e quebra com a ficção da dramaturgia, o que pode ser visto pela sua voz e a forma de enunciar as falas.
Outro elemento sonoro extremamente marcante da peça são os ruídos produzidos pelos músicos-intérpretes. Durante toda a peça, uma pequena banda toca diversas músicas e produz sons ao vivo. Esses ruídos aparecem no meio dos diálogos dos personagens para questionar alguma fala, enfatizar uma ideia ou criar uma ambientação para histórias e momentos que os personagens estão narrando.
Estas interferências são muito importantes e transformam a estrutura da peça visto que ajudam a quebrar com a narrativa ficcional da célula revolucionária em alguns momentos e também para ressaltar o absurdo e o teor imagético e fantasioso de muitas cenas, que sem os sons e a música ficariam cruas e confusas para o público.
Em trecho do seu livro “Sons e(m) cena: parâmetros do som” (Appris Editora, 2019), César Lignelli fala sobre as diferentes capacidades e possibilidades dos ruídos em propostas estéticas: “Por outro lado, a definição de ruído como uma interferência sobre o que, de início, queremos ouvir também ganha um caráter mais complexo em se tratando de propostas estéticas. Nestas, os ruídos podem auxiliar na criatividade e na ampliação de camadas de sentido. São capazes de agir como uma espécie de desorganizadores de clichês, provocadores de novos estilos e até de possíveis entre gêneros artísticos.”
Por fim, as músicas da peça foram o elemento mais marcante e transformador para mim. O espetáculo é recheado de canções, algumas autorais e outras clássicas brasileiras e internacionais. Fazem parte do enredo músicas como “Máscara Negra” e “A Internacional”, hino da União Soviética. As músicas, em sua maioria cantadas pelos próprios atores e músicos, servem em alguns momentos como uma quebra na narrativa, tensionando essa ficção absurda e causando um estranhamento no público, e em outros são uma forma de salientar os discursos que estão proclamando, como um grito de luta que demonstra que somente palavras não são suficientes para expressar algumas ideias, o que dialoga fortemente com uma das reflexões principais da peça, de que não se faz revolução sem poesia.
Além disso, as músicas atuam como uma linha que costura o ritmo e a dinâmica da peça, levando as cenas e os atores para diferentes estados e nunca deixando a energia e o vigor da peça diminuir. Não à toa que a cena final da peça é um grande monólogo sobre luta e revolução abraçado por uma melodia instrumental de rock que coloca os personagens em um transe apoteótico e leva o público a vibrar junto com eles.
Em síntese, essa é uma peça extremamente sonora e musical, muito rítmica e dinâmica e que não poderia existir sem os elementos citados. Acredito ser um trabalho teatral bastante interessante para estudar o som em cena, visto que explora a sonoridade e a musicalidade de uma forma muito inteligente, ampliando as potencialidades de uma dramaturgia, atuação e encenação que já são muito potentes por si só, mas que não conseguiriam transmitir metade do que transmitem sem os sons e a música.
Foi uma peça que gostei muito de assistir, em que me diverti demais e dei muitas risadas.

Ficha Técnica
Direção: Caio Silviano
Dramaturgia: Caio Silviano
Elenco: Alexandre Maldonado, Alice Guêga, Amanda Quintero, Bernardo Bibancos, Breno Manfredini, Ciça Barros, Henrique Reis, Ian Noppeney, Juliano Veríssimo e Rafael Érnica
Figurino: Ciça Barros
Cenário: Grupo Pano
Adereços: Amanda Quintero e Bruno Britto
Máscaras: Rafael Érnica
Iluminação: Lui Seixas
Trilha sonora e música: Grupo Pano
Produção executiva: Laura La Padula
Contrarregra: Ian Noppeney e Gabriela Sugui
Operação de luz: Gustavo Gonçalo
Operação de som: Tomé de Souza e Camila Cruz
Design gráfico: Ciça Barros
Boneco: José Valdir Albuquerque
Inflável: Infla Power
Fotografias: Everson Verdoão, Gabriela Lemos e Priscila Beal
Realização: Grupo Pano
As imagens dessa publicação foram retiradas do Instagram do Grupo Pano





