Como criar uma sonoplastia?

A sonoplastia é o som da cena, caso você tenha uma ideia muito vaga sobre este assunto, pode ler o post “O som da cena”, publicado neste blog em 26/07/2017, lá você irá encontrar algumas dicas sobre onde pesquisar mais sobre este assunto.

Imagem disponível em https://lugaresdoinvisivel.github.io/objetossonoros.html

Mas se você está no meio de uma montagem e não sabe bem por onde começar para a criação da sua sonoplastia, aqui vão algumas dicas:

A primeira questão a se colocar é qual a função do som na sua cena? Você quer que o som crie um clima ou que cause um estranhamento? Você quer que o som seja uma vinheta de algo que irá ocorrer diversas vezes? Quer incluir músicas temas dos personagens?

Pode ser que a cada uma destas perguntas você tenha tido uma resposta positiva, então talvez seja necessário fazer algumas escolhas para que sua peça não fique uma colcha de retalhos sem qualquer harmonia.

Outro aspecto a definir é sobre quem irá escolher as músicas ou os sons a serem incorporados nas cenas. Uma opção possível é a de contratar um sonoplasta. É possível, mas incomum em montagens escolares. Embora um sonoplasta possa dar contribuições riquíssimas ao trabalho educativo, no caso de não contar com um, você também poderá fazer uma parceria com o/a professor/a de música da escola. Supondo que a escola na qual você trabalhe não tenha ninguém com formação em música, ficamos com o ditado “se não tem tu, vai tu mesma!”. E ainda daremos uma de Polyana e vamos observar as vantagens da sonoplastia ser feita por quem dirige a peça, e quase sempre é responsável também pelo figurino, cenário, iluminação…

A primeira vantagem desta possibilidade é que será uma ótima oportunidade de ampliação do teu repertório musical, que ficará arquivado como mais um recurso a ser usado também em outros trabalhos. A outra vantagem é que você acompanha todo o percurso e poderá saber detalhes que outros desconhecem.

Outra possibilidade é que a sonoplastia seja criada juntamente com os alunos/atores. Eles podem trazer sugestões de músicas para além das suas e a melhor forma de escolher costuma ser realizando a cena com as diferentes sugestões e observar qual ajuda melhor em sua construção.

O uso de instrumentos, objetos sonoros também deve ser considerado, dentre as múltiplas possibilidades. Não seja econômica na experimentação, tente soluções variadas, inclusive aquelas que possam lhe parecer pouco prováveis, pois esta será a melhor maneira de descobrir qual o som que contribui mais para o trabalho dos alunos/atores e também para o diálogo com a plateia.

Não esqueça que o silêncio também é uma escolha possível!

Alunos em cena: Sons do corpo

Esta proposta tem como objetivo explorar os sons produzidos pelo corpo e pela voz.

Para quem?

Todas as idades

Condições necessárias

Uma sala com espaço para que todos se movimentem

Materiais necessários

Nenhum

Foto retirada de http://barbatuques.com.br/pt/

Como acontece?

Proponha aos alunos a exploração dos sons que o corpo pode produzir. É importante diferenciar os sons produzidos pelos gestos daqueles emitidos pela voz. Em cada um deles temos muitas variáveis possíveis: produzimos sons batendo uma parte do corpo contra outra, como as palmas ou as mãos nos braços, nas pernas, na barriga, na cabeça ou em qualquer outra parte. Também podemos produzir sons esfregando diferentes partes do corpo. A fricção das palmas das mãos não é igual àquela produzida somente pelos dedos ou pelos pés.

Outra maneira de produzirmos sons corporais resulta do contato do corpo ou de partes dele com objetos ao nosso redor, como o chão, a mesa, a parede. Claro que esta proposta pode se ampliar enormemente, ao toque de muitos objetos, gerando múltiplos e diversos sons, mas então estaremos tirando o foco dos sons do corpo.

Na exploração dos sons produzidos pela voz, podemos trabalhar a imitação de diferentes sons do meio ambiente. Proponha aos alunos alguns e depois peça que façam sugestões.

Em todas estas explorações sonoras é possível ter em mente as variações decorrentes dos parâmetros do som, isto é: altura, intensidade, duração e timbre. Para explorá-los, brinque com o ritmo, faça um som mais alto e mais baixo ou mais grave e mais agudo.

Esta proposta pode ser repetida muitas vezes, pois novas descobertas sonoras serão feitas, outros sons serão gerados, com diferentes maneiras de explorá-los. É bom lembrar que a diversidade sonora e a consciência de que podemos utilizar muitos recursos com o corpo e com a voz são importantes instrumentos  para criar diferentes personagens.

Dica

A audição de sons, seja do meio ambiente, seja de gravações reproduzidas com esse propósito poderá ampliar enormemente a diversidade das experimentações. Muitas vezes, a criação fica restrita porque os alunos têm pouco repertório musical e sonoro. Aprender a escutar é uma ótima maneira de ampliar as possibilidades criativas.

Um grupo musical que se utiliza de diferentes sons corporais é o Barbatuques. Se você nunca ouviu nada deles, vale a pena conhecer e, quem sabe, depois mostrar também aos seus alunos! Para conhecer mais, veja: http://barbatuques.com.br

O som da cena

Talvez seja estranho pensar no som da cena! Cena teatral tem som? O som não é apenas a fala dos personagens? O som da cena também pode ser chamado de sonoplastia, e podemos compreender o que é a sonoplastia a partir da escuta dos sons que existem nas nossas “cenas” cotidianas.

Vivemos rodeados de sons. Se você escutar o lugar onde está neste momento,  perceberá que, por mais silencioso que seja, está repleto de sons. Murray Schafer denominou esta situação de “paisagem sonora”. Quem se interessar por este assunto encontrará diversas publicações a respeito – há muito material a pesquisar.

Jean-Jacques Roubine, em seu livro A linguagem da encenação teatral (1998, Editora Zahar), afirma:

Os naturalistas foram os primeiros a se interrogar sobre a sonorização do espaço cênico. E se a tradicional música de cena habitualmente usada para manter um certo clima durante as pausas impostas pelas mudanças de cenários lhes aparecia como um artifício parasitário do qual era necessário se livrar, a sonoplastia, pelo contrário, era capaz, na sua opinião, de interferir com eficiência para reforçar a ilusão visual através de sua verdadeira paisagem sonora.

Os recursos para compor o ambiente sonoro são muitos e vão variar conforme a proposta da peça: pode existir a intenção de que a sonoplastia leve a plateia a se sentir no espaço no qual a cena ocorre, mas também se pode desejar que a sonoplastia traduza as emoções dos personagens, recurso bastante utilizado nas novelas. Ou, ainda, a sonoplastia pode buscar um contraponto, causando um estranhamento entre o que se vê e o que se ouve – tudo dependerá, como eu já disse, da proposta da montagem.

O uso de músicas, ruídos, canto, sejam eles executados ao vivo, pelos atores, sejam gravações reproduzidas durante a apresentação, é possível e bastante comum. Porém, é importante pensarmos que existe, inclusive, a escolha por não utilizar nenhuma sonoplastia, também como parte da concepção da cena. Seja o som pensado e escolhido ou o som do espaço no qual a apresentação ocorre, ele fará parte da cena.

Para saber mais:

Se você quer conhecer mais sobre o assunto, pode pesquisar no livro A sonoplastia no teatro, de Roberto Gil Camargo, ou na tese de Fabio Cintra, A musicalidade como arcabouço da cena: caminhos para uma educação musical no teatro, que estabelece relações entre a música e a cena teatral, enfocando a improvisação como espaço comum (Disponível aqui.)