Foi enquanto eu esperava um livro de Maiakovski que tive uma epifania sobre a revolução

por Teresa Perrotti

Esse post comenta a peça “Foi enquanto eu esperava um livro de Maiakovski que tive uma epifania sobre a revolução” do Grupo Pano, que esteve em cartaz no Tusp Maria Antônia do final de junho até meio de julho de 2026, sob o ponto de vista das sonoridades presentes nela.

A peça narra a história de quatro camaradas que estão confinados em uma célula revolucionária e que esperam a chegada de um livro de Vladmir Maiakovski, enquanto discutem e refletem sobre maneiras de realizar a revolução socialista no Brasil, ao passo que vão sendo questionados, e se questionam, por diferentes figuras absurdas que aparecem no decorrer da peça, sobre sua própria atitude revolucionária.

A sonoridade dessa peça tem um papel central para o desenrolar da narrativa, visto que além de costurar os diferentes momentos e ações da história, ela também escancara a mensagem que a peça pretende transmitir. O som tece durante a apresentação comentários críticos, irônicos e dramáticos sobre as atitudes dos personagens, criando uma atmosfera épica e lúdica que ajuda a dramaturgia a caminhar para a revelação do final da peça.

Uma característica sonora que me chamou atenção, foi a voz e fala dos personagens em cena. Além de cada personagem ter uma voz marcante e específica que ajuda a criar as figuras que estão sendo representadas, existe uma grande diferença entre as vozes dos personagens mais lúdicos e fictícios, dos personagens mais cotidianos e realistas.

Os quatro camaradas possuíam vozes bastante anasaladas, rápidas e em sua maioria em tons mais agudos, além de seus diálogos terem um ritmo muito marcado e fora da fala cotidiana, o que gerou em alguns momentos dificuldade de entender o que estavam dizendo. Em alguns momentos, os atores faziam uma quebra e agiam como “personagens atores”, mas ainda dentro da ficção da dramaturgia, entretanto suas vozes e a forma que emitem suas falas mudava drasticamente, principalmente os aspectos do timbre, duração e intensidade. Falas que antes eram ditas rapidamente agora soavam em um tempo comum de conversas cotidianas, as vozes anasaladas e estereotipias da atmosfera clownesca sumiram e foram substituídas por vozes mais suaves e a intensidade na qual eram ditas as falas também se alterava: falas que antes soavam em intensidades fortes ou fortíssimas agora estavam no plano do médio piano.

Penso que essas mudanças de características da voz e da fala trouxeram, além de uma clara mudança de personagens, também uma mudança de comportamento e atitudes destes. Enquanto os camaradas tinham muita certeza de suas ideias e queriam propagá-las para o mundo todo, os “personagens atores” tinham muita dúvida de suas ações e até mesmo de sua própria identidade, o que se refletia em suas vozes e diálogos.

Um trecho do livro “A música e sua relação com o ser humano” de Marcelo Petraglia (Editora OuvirAtivo, 2010) fala sobre isso: “A intensidade é também a expressão de uma qualidade emocional. Sentimentos transbordantes normalmente se traduzem em tons fortes, enquanto sentimentos mais íntimos e delicados, em pianos.”. Essa distância do modo de falar também acontece entre os camaradas e personagens mais comuns do “mundo real” como o carteiro, que entra em cena para trazer uma encomenda e quebra com a ficção da dramaturgia, o que pode ser visto pela sua voz e a forma de enunciar as falas.

Outro elemento sonoro extremamente marcante da peça são os ruídos produzidos pelos músicos-intérpretes. Durante toda a peça, uma pequena banda toca diversas músicas e produz sons ao vivo. Esses ruídos aparecem no meio dos diálogos dos personagens para questionar alguma fala, enfatizar uma ideia ou criar uma ambientação para histórias e momentos que os personagens estão narrando.

Estas interferências são muito importantes e transformam a estrutura da peça visto que ajudam a quebrar com a narrativa ficcional da célula revolucionária em alguns momentos e também para ressaltar o absurdo e o teor imagético e fantasioso de muitas cenas, que sem os sons e a música ficariam cruas e confusas para o público.

Em trecho do seu  livro “Sons e(m) cena: parâmetros do som” (Appris Editora, 2019), César Lignelli fala sobre as diferentes capacidades e possibilidades dos ruídos em propostas estéticas: “Por outro lado, a definição de ruído como uma interferência sobre o que, de início, queremos ouvir também ganha um caráter mais complexo em se tratando de propostas estéticas. Nestas, os ruídos podem auxiliar na criatividade e na ampliação de camadas de sentido. São capazes de agir como uma espécie de desorganizadores de clichês, provocadores de novos estilos e até de possíveis entre gêneros artísticos.”

Por fim, as músicas da peça foram o elemento mais marcante e transformador para mim. O espetáculo é recheado de canções, algumas autorais e outras clássicas brasileiras e internacionais. Fazem parte do enredo músicas como “Máscara Negra” e “A Internacional”, hino da União Soviética. As músicas, em sua maioria cantadas pelos próprios atores e músicos, servem em alguns momentos como uma quebra na narrativa, tensionando essa ficção absurda e causando um estranhamento no público, e em outros são uma forma de salientar os discursos que estão proclamando, como um grito de luta que demonstra que somente palavras não são suficientes para expressar algumas ideias, o que dialoga fortemente com uma das reflexões principais da peça, de que não se faz revolução sem poesia.

Além disso, as músicas atuam como uma linha que costura o ritmo e a dinâmica da peça, levando as cenas e os atores para diferentes estados e nunca deixando a energia e o vigor da peça diminuir.  Não à toa que a cena final da peça é um grande monólogo sobre luta e revolução abraçado por uma melodia instrumental de rock que coloca os personagens em um transe apoteótico e leva o público a vibrar junto com eles.

Em síntese, essa é uma peça extremamente sonora e musical, muito rítmica e dinâmica e que não poderia existir sem os elementos citados. Acredito ser um trabalho teatral bastante interessante para estudar o som em cena, visto que explora a sonoridade e a musicalidade de uma forma muito inteligente, ampliando as potencialidades de uma dramaturgia, atuação e encenação que já são muito potentes por si só, mas que não conseguiriam transmitir metade do que transmitem sem os sons e a música.

Foi uma peça que gostei muito de assistir, em que me diverti demais e dei muitas risadas.

Ficha Técnica

Direção: Caio Silviano
Dramaturgia: Caio Silviano
Elenco: Alexandre Maldonado, Alice Guêga, Amanda Quintero, Bernardo Bibancos, Breno Manfredini, Ciça Barros, Henrique Reis, Ian Noppeney, Juliano Veríssimo e Rafael Érnica
Figurino: Ciça Barros
Cenário: Grupo Pano
Adereços: Amanda Quintero e Bruno Britto
Máscaras: Rafael Érnica
Iluminação: Lui Seixas
Trilha sonora e música: Grupo Pano
Produção executiva: Laura La Padula
Contrarregra: Ian Noppeney e Gabriela Sugui
Operação de luz: Gustavo Gonçalo
Operação de som: Tomé de Souza e Camila Cruz
Design gráfico: Ciça Barros
Boneco: José Valdir Albuquerque
Inflável: Infla Power
Fotografias: Everson Verdoão, Gabriela Lemos e Priscila Beal
Realização: Grupo Pano

As imagens dessa publicação foram retiradas do Instagram do Grupo Pano

 

Restinga de Canudos

“E se uma cidade inteira continuasse viva mesmo depois de ser submersa?
Em “Restinga de Canudos”, a @ciadotijolo mergulha nas águas do açude de Cocorobó, na Bahia, para imaginar as histórias, memórias e vozes que permaneceram depois do desaparecimento de Canudos.
Inspirado em um dos episódios mais marcantes da história do Brasil, o espetáculo vai além da narrativa da guerra e do massacre para recriar uma comunidade forte, popular e inventiva, atravessada por encontros, rezas, festas, música e resistência.
Com música ao vivo, cenas intensas e imagens marcantes, a montagem transforma o palco em um espaço de memória, conectando passado e presente em uma experiência sensível e potente.”

O texto acima pode ser encontrado no Instagram da @ciadotijolo e conta um pouco desse espetáculo teatral tão envolvente.

Assisti no SESC Jundiaí e a duração de quase 3 horas foi igual a de festa boa, passou de forma leve. O espetáculo faz desse momento uma celebração, ainda que se remeta a um momento tão triste da história do nosso país. Celebramos o acontecimento teatral, a possibilidade que uma encenação nos dá de participarmos de algo que não vivemos em nossa história pessoal.

A Cia do Tijolo traz em sua história as referências do Teatro Vento Forte, um espaço criado por Ilo Krugli, que foi um espaço de vivência teatral e artística onde o grupo se fez forte, onde o coletivo foi a maneira de aprender e de criar. Essa história presente na memória de parte do grupo e do diretor e ator desse espetáculo, Dinho Lima Flor se evidencia na montagem atual.

Para além da história narrada, a presença dos músicos, parte do grupo, o cenário, o figurino, os objetos de cena, tudo converge para que você participe e se envolva com esse momento.

A atuação de Dinho Lima Flor é “de tirar o chapéu”, mas está bem acompanhado pelo restante do grupo. Dinho também foi premiado como melhor diretor pela APCA. Na apresentação do SESC tive o prazer de ver Baco Pereira no palco, além do querido @marcoscoin.

Fique de olho, siga o grupo e aproveite!

Ficha Técnica:
Criação e dramaturgia: Dinho Lima Flor e Rodrigo Mercadante
Direção geral: Dinho Lima Flor
Elenco: Dinho Lima Flor, Rodrigo Mercadante, Karen Menatti, Odília Nunes, Artur Mattar, Jaque da Silva, Danilo Nonato, João Bertolai, Marcos Coin, Dicinho Areias, Jonathan Silva, Juh Vieira
Atriz colaboradora: Vanessa Petroncari
Movimento e corpo: Viviane Ferreira
Composições originais: Jonathan Silva
Direção musical: Cia. do Tijolo e William Guedes
Desenhos: Artur Mattar
Cenário: Cia. do Tijolo e Douglas Vendramini
Assistência de cenotécnica: Tati Garcez e Gonzalo Dorado
Figurino: Cia. do Tijolo e Silvana Marcondes
Iluminação: Cia. do Tijolo e Rafael Araújo
Som: Hugo Bispo
Fotos: Alécio Cézar e Flavio Barollo
Filmagem da peça: Flavio Barollo
Design gráfico: Fábio Viana
Assessoria de imprensa: Rafael Ferro e Pedro Madeira
Direção de produção: Garcez Produções (Suelen Garcez)
Produção executiva: Suelen Garcez
Assistência de produção: Tati Garcez

As fotos desse post estão no site do grupo: https://www.ciadotijolo.com.br/canudos

Cenas de pinturas

John French Sloan, McSorley’s Bar, 1912, Detroit Institute of Arts

Para quem?

Todas as idades

Condições necessárias

Um espaço amplo

Materiais necessários

Um projetor e um computador Nenhum.

Honoré Daumier, A carruagem de terceira classe, 1862–1864

Como acontece?

A ideia central dessa proposta é de criar cenas partindo de pinturas ou desenhos realistas, que retratem situações diversas.

Comece escolhendo com os alunos artistas que os interessam e faça uma leitura de algumas obras de arte de um ou mais artistas.

A primeira parte desse exercício utiliza uma mesma pintura para todo o grupo.

Vocês farão uma leitura da obra, permitindo que os alunos comentem suas impressões e reflexões sobre o que essa obra gera, para então poder fazer uma apresentação ou uma pesquisa sobre a obra e o artista que a pintou.

Depois disso a ideia é criar cenas inspiradas pela obra.

Você pode questionar o grupo com perguntas como:

  • O que estava acontecendo nesse lugar dez minutos antes desse instante?
  • Para onde essas pessoas foram quando esse momento passou?
  • O que essas pessoas sentiam?
  • Por que estavam realizando essa ação?
Bonjour, Monsieur Courbet, 1854.

Depois partam para uma representação na qual cada um irá escolher um dos personagens e reproduzir seus gestos na pintura, para então passar a descobrir como esse personagem se movimenta, fala, age.

Esse exercício pode ser feito com os alunos representando várias pessoas retratadas na pintura, até escolher alguma com a qual se identifique mais.

Depois desse momento, divida a turma em grupos e peça para cada um criar uma cena que seja inspirada em tudo o que exploraram da obra, mas que não precisa ser uma cópia da cena.

 

Será interessante comentar com o grupo as diferentes cenas criadas pelos grupos.

Fios que puxam o corpo

Para quem?

Todas as idades

Condições necessárias

Um espaço amplo, que permita movimentação corporal.

Materiais necessários

Nenhum.

 

 

Como acontece?

Essa proposta explora a consciência corporal e a percepção sobre de onde surge o movimento em cena.

Ela se inicia com um aquecimento no qual todos irão movimentar as articulações do corpo. Esse aquecimento tem a função de que o corpo se faça presente e no caso das crianças pequenas, que possamos nomear as partes do corpo.

Depois disso faremos caminhadas pelo espaço, intercalando uma caminhada neutra, onde cada um caminha sem nenhuma intensão e o caminhar como se o corpo estivesse sendo puxado por fios.

Serão quatro pontos que os fios imaginários estarão presos no corpo: a região do púbis, o centro do tórax, na altura do coração, a garganta e o centro da testa, no meio das sobrancelhas.

Para os adolescentes pode ser motivo de grande agitação falar da região do púbis, então pode ser explicado como onde termina a barriga.

Cada uma dessas regiões dá uma intensão diferente para o caminhar. Essa proposta está relacionada aos chacras e eu vivenciei em uma oficina do Grupo Galpão. A região do púbis está relacionada a força sexual, nosso lado mais animal; a do tórax está relacionado às emoções, a da garganta se relaciona com a comunicação e a da testa com as ideias, os pensamentos.

Essas diferentes intensões podem ser explicitadas para os grupos que terão condições de compreender e serem maneiras de que essas diferentes intensões possam ser sentidas.

Como escolher qual peça assistir

Os critérios para escolha de qual peça assistir são muito variáveis e vale a pena estar atento a eles, para que você não assista algo que não te interessa.

Para quem mora em cidades grandes, como São Paulo, a proximidade pode ser um fator importante. Para quem mora em cidades pequenas, muitas vezes a diversidade é também pequena e então, a escolha será pela única opção. Em todos os casos, o valor a ser pago é um fator a considerar, mas estes critérios não se relacionam à qualidade da apresentação e sim a praticidade e viabilidade.

Na Companhia de mulheres em “Não se esqueça de mim”

Talvez você conheça a playlist “Perseguindo um artista” do canal do Circularte Educação, se não conhece, acesse este link no final da leitura e veja tudo o que tem por lá.

Perseguir um artista pode ser um dos critérios para escolher qual peça ver e no caso do teatro essa perseguição pode ser de um grupo teatral, de uma atriz ou um ator, de um diretor, de uma cenógrafa, iluminador, sonoplasta ou figurinista. Isto é, você pode escolher porque gosta muito do trabalho de qualquer um destes artistas que fazem parte da montagem de uma peça e ter o interesse em acompanhar seu trabalho. Essa escolha te permitirá observar como o trabalho desse artista ou desse grupo de artistas vai se desenvolvendo ao longo do tempo, o que é muito interessante de perceber.

Outro ponto a ser considerado é o texto. Você pode escolher assistir uma peça porque gosta muito daquele texto, ou porque é um texto famoso, um clássico da dramaturgia ou um novo autor e você quer ver como esse texto se transforma em cena, em peça. Sempre há o risco de ser feita uma péssima montagem com um texto maravilhoso, mas tendo um bom texto, a chance de a peça ser boa já aumenta.

Outro aspecto que pode definir a tua escolha é o tema. Uma peça que aborde uma temática que te interessa poderá contribuir muito para as tuas reflexões sobre esse assunto.

Por fim, a indicação também é um bom critério. Se você sabe que aquela amiga tem um gosto para o teatro parecido com o seu ou se gosta do que escreve um crítico teatral, muitas vezes vale a pena conferir o que foi sugerido. Nesse mesmo sentido, a companhia de alguém ou de um grupo pode ser um bom motivo para sair de casa, afinal qualquer programa bem acompanhada é muito melhor.

Os Persas

A peça “Os Persas” escrita por Ésquilo e representada em 472 a.C. é uma das noventa peças escritas por esse autor e nos conta sobre a batalha de Salamina, na qual os gregos derrotaram os persas.

Na publicação da Editora Zahar, podemos ler em sua introdução:

“Ésquilo, o mais antigo dos três grandes dramaturgos gregos e criador da tragédia em sua forma definitiva, nasceu em Elêusis, nas proximidades de Atenas, em 525 ou 524 a.C.; combateu nas batalhas de Maratona e Salamina contra os invasores persas de sua pátria, e morreu no ano de 456 a.C.

Ele escreveu cerca de 90 peças, das quais nos restam completas as Suplicantes, encenadas em data incerta (entre 499 e 472 a.C.); Os Persas, representados em 472 a.C.; os Sete Chefes contra Tebas (em 467 a.C.); o Prometeu Acorrentado (data incerta, provavelmente próxima ao ano de estréia de Oréstia); o Agamêmnon, as Coéforas e as Eumênides (que compõem a trilogia conhecida como Oréstia), representadas pela primeira vez em 458 a.C., todas estreadas em Atenas.”

No decorrer do texto vamos acompanhando o sofrimento dos Persas, inicialmente pela fala da rainha, do Coro e do Corifeu e depois pelo relato do mensageiro que descreve a maneira pela qual se deu a batalha e de como os persas foram derrotados. Segue um pequeno trecho deste relato:

 

Screenshot

 

“Iniciou a nossa perdição, senhora,

algum espírito perverso ou deus maligno

vindo não sei de onde. Vou contar-te os fatos.

Um grego, com sua armadura ateniense,

veio dizer a Xerxes que quando caíssem

as trevas da noite soturna, as forças gregas

desistiriam de enfrentar os atacantes

e ocupando seus bancos nas trirremes rápidas

se esforçariam por salvar-se, cada um

como pudesse, numa fuga inesperada.

Depois de ouvir essa notícia o rei Xerxes,

sem suspeitar de uma atitude astuciosa,

mandou aos chefes de todas as suas naus

a seguinte mensagem: quando o sol poente

já não tivesse luz para aquecer a terra

com seus raios e as sombras se disseminassem

pelo alto éter consagrado, os comandantes

teriam de alinhar quase todas as naus

em três fileiras, no intuito de fechar

saídas e passagens; as naus reservadas

patrulhariam a ilha de Salamina.

E mais: se os gregos conseguissem escapar

da morte desastrosa e achassem no mar

alguma rota de evasão, os responsáveis

seriam degolados. Assim falou Xerxes.

Um coração feroz ditou-lhe tais palavras

sem ter a mínima noção, naquele instante,

da sorte amarga que os deuses lhe reservavam.”

Screenshot

A peça segue com a aparição do fantasma do rei morto, pai de Xerxes e depois o retorno de Xerxes, que irá terminar de esclarecer e relatar os ocorridos nessa derrota.

Em todo o texto podemos observar a visão de um grego a respeito de outro povo, os persas, além da estrutura da peça, na qual o coro fala de forma lírica. A compreensão do conceito de tragédia pelos gregos antigos também é possível de observar na leitura desse texto, assim como a importância dos deuses em qualquer fato.

Talvez seja um texto estranho, tanto pela linguagem, como pela narrativa de uma batalha que ocorreu há tanto tempo, porém quando você mergulha na leitura consegue imaginar toda a situação narrada, assim como o sofrimento pela destruição de seu país. Vale a leitura!

Teatro Grego

TEATRO GREGO

Os Gregos (Tragédia) não se interessam em expressar as pequenas emoções/expressões, mas sim amplificá-las. O público participava ativamente do ritual teatral.

ORIGEM

A Tragédia Grega nasce dos Ditirambos, que era um coro contado por cinquenta homens ou meninos. Seu conteúdo era mais lírico que dramático. Nos ditirambos convidam, geralmente, os deuses a que descessem à terra para presenciar seu canto, em especial a Dionisio – deus da fecundidade animal e agrária.

Os diálogos ocorriam na Tragédia entre o coro e o corifeu (que depois dará lugar ao primeiro ator). O primeiro ator não somente dialoga com o Coro mas também acompanha seu diálogo com a ação, isto é, não somente recita ou canta mas também atua.

A Comédia tem como origem os hinos fálicos, que aconteciam nas procissões e ritos de entronização de Fales.

Observando as duas possíveis origens, da Tragédia e da Comédia, fica absolutamente evidente o caráter religioso do Teatro Grego.

 

Os Teatros Gregos possuem uma acústica magnífica, existiram alguns pintores de cenário, além de acessórios cênicos, como os carros e escada subterrânea, os “Degraus de Caronte”. Outros recursos da cena eram:

  • Deus ex-machina: guindaste que fazia uma cesta descer do teto do teatro, onde se sentava deus ou o herói e recolocava a ação dramática nas trilhas mitológicas.
  • Eciclema: plataforma rolante sobre a qual um cenário era movido, mostrando as atrocidades por trás da cena.
  • Theologeion: plataforma no teto do teatro, de onde, em geral, os Deuses falavam.

Fazem as apresentações durante o dia, visando o término da representação com o pôr-do-sol, que atuava de forma dramática.

VESTUÁRIO, MÁSCARAS e COTURNOS

As máscaras, em geral são de linho revestido de estuque, prensada em moldes de terracota, que amplificavam o poder da voz e possibilitavam que o mesmo ator fizesse vários papéis. Também produziam um encolhimento nos expectadores, aumentam o tamanho da cabeça humana, que junto com o coturno possibilita a proporção, fazendo com que os personagens fiquem maiores.

As roupas gregas respeitam o corpo, permitem a movimentação. Geralmente são retos, conferindo elegância à figura. São usadas para mostrar diferentes posições sociais, criam hierarquia, mas não humilham.

GENEROS DRAMÁTICOS GREGOS

São três os gêneros dramáticos no teatro grego: o drama satírico, a tragédia e a comédia.

Drama Satírico: Se parece muito a Tragédia, tanto na sua estrutura formal como em sua temática de caráter mitológico. Mas se diferencia da tragédia no seu tom, na representação e na composição do Coro, integrado obrigatoriamente por sátiros. Por seu fundo e forma poderia ser considerado como uma tragédia divertida.

Assim como Dionisio, de cujo cortejo pertencem, os sátiros personificam as forças da Natureza, principalmente as forças passionais que conduzem a procriação, razão pela qual passaram para a posteridade como símbolo das pulsões eróticas existentes nos homens e nos animais. Mas também simbolizam outros impulsos, como o temor, o desenfreio e a ironia, motivo por serem representados como humanos com elementos animais.

 

Tragédia: Segundo Aristóteles na Poética: “É, pois, a Tragédia imitação de uma ação de caráter elevado, completa e de certa extensão, em linguagem ornamentada e com as várias espécies de ornamentos distribuídas pelas diversas partes (do drama), (imitação que se efetua) não por narrativa, mas mediante atores, e que, suscitando o “terror e piedade, tem por efeito a purificação dessas emoções”.

A Tragédia deve ser escrita com uma sequência de ações que irão provocar uma intensidade emocional até chegar ao clímax e então produz a ação de desenlace.

São preferíveis as coisas impossíveis, mas críveis, que as possíveis, mas incredíveis.

Sobre os personagens da tragédia, Aristóteles afirma:“…não devem ser representados nem homens muito bons que passem da boa para a má fortuna – caso que não suscita nem terror nem piedade, mas repugnância – nem homens muito maus que passem da má para a boa fortuna, pois não há coisa menos trágica…” O homem escolhido não deve ser nem muito mal, nem muito bom e deve ser alguém que tenha grande reputação.

 

Autores Trágicos: Ésquilo (525 a.C. – 456 a.C.), Sófocles (497/495 a. C. – 405/406 a.C.), Eurípedes (480 a.C. – 406 a.C.)

Comédia:

Tem origem nas cerimônias fálicas e canções. A comédia é um precursor da caricatura política. No final do primeiro ato, o coro tira suas máscaras e vai até a frente falar com a plateia sobre os acontecimentos locais.

Se diferencia da tragédia principalmente pela existência do Agón, o combate e a Parábasis, momento da saída dos atores e que o coro retira seu manto e máscara, falando diretamente ao público.

“A Comédia é, como dissemos, imitação de homens inferiores; não, todavia, quanto a toda a espécie de vícios, mas só quanto àquela parte do torpe que é o ridículo”

Mimo: Se ocupa do povo comum, anônimo. Incluíam as mulheres nas representações

Autores Cômicos: Aristófanes (445 a.C. – 380 a.C.), Menandro (342 a.C. – 292 a.C.)

Commédia Dell’Arte

A Commédia dell’Arte é um gênero teatral que existe desde meados do século XVI, com presença marcante na Itália.

Segundo Patrice Pavis “se caracteriza por uma criação coletiva de atores que elaboram um espetáculo, improvisando gestual e verbalmente à partir de um roteiro não escrito de antemão por um autor e sempre muito breve (indicações de entradas e saídas e sobre as grandes articulações da fábula).”

As companhias de commédia dell”arte percorriam a Europa se apresentando em salas alugadas, nas praças públicas ou para príncipes que os contratavam.

Se caracteriza pela representação com tipos fixos: o casal de namorados, que representam a parte séria do espetáculo; Pantaleão e o Doutor, que são os velhos cômicos; o Capitão e os dois criados, sendo um deles esperto e o outro ingênuo.

 

Uma característica marcante deste gênero é o uso de máscaras. O trabalho corporal é intenso, já que muito se demonstra por signos gestuais, em uma apresentação organizada “coreograficamente”. Apresenta situações de intrigas variadas, sem uma preocupação com a verossimilhança, mas sim com o ritmo da apresentação.

O filme “A viagem do capitão tornado” de Ettore Scola faz referência a esse gênero teatral. Você pode saber um pouco mais vendo esse vídeo.

Finais diferentes

Para quem?

Qualquer idade

Condições necessárias

Uma sala com espaço amplo, que permita exploração teatral.

Materiais necessários

Nenhum

      

Como acontece?

Essa proposta tem como inspiração o livro “histórias para Brincar” de Gianni Rodari, do qual escrevi no post anterior e que você pode acessar aqui. Caso você tenha como utilizar uma das histórias do livro, será melhor. Se não tiver, use outra história.

A ideia é interromper uma história antes que chegue ao final e então dividir o grupo em subgrupos para que cada subgrupo invente um final diferente.

O ideal é que seja uma história desconhecida de todos, para que as pessoas não fiquem influenciadas pelo final já conhecido.

Depois de ter deixado um tempo para que inventem o final, peça que todos os grupos representem o final imaginado, encenando a situação, mesmo que ela não contemple o número de pessoas do grupo.

Outra possibilidade é que o final tenha o mesmo número de personagens que as pessoas do grupo, ainda que na história tivesse um número bem menor ou bem maior. Nesse caso o grupo terá que encontrar motivos para que os personagens desapareçam ou para que outros personagens sejam criados.

Parto Pavilhão

Ingressos esgotados, cheguei antes e fiquei na espera de sobrar um lugar. Sobrou!

Fui assistir esse espetáculo com uma grande expectativa, tanto por ser um texto do Jonny Salaberg, sobre quem já escrevi um artigo que você pode ler aqui, como por ter sido recomendado pela minha filha, Teresa Perrotti, que tem um olhar atento ao que assiste.

E já que falei do autor, começo pela dramaturgia. A peça aborda uma temática necessária e bastante ignorada: a das mulheres parturientes detidas. Como mulher, como mãe, dói acompanhar essa narrativa, pontuada pelos momentos nos quais a personagem, que também é mãe, nos fala sobre a dor dessa distância, sobre a expectativa da separação, sobre a tristeza do parto na condição de presa.

O texto nos coloca na pilha da fuga que vai sendo montada com a emoção do medo permanente, no paralelo do jogo do Brasil na Copa do Mundo. Queria ter lido o texto antes da peça, mas vou ler depois, já com o livro na mão, que você pode comprar para ter uma outra percepção desse texto pela tua leitura.

A montagem é atordoante, positivamente atordoante. No jogo de luz e de cenário, que vão nos colocando de lá para cá, junto com as emoções da Rose. A música tocada ao vivo pela Reblack é um presente a mais, na sintonia com a atuação, dedo a dedo. Direção precisa de Naruna Costa.

Aysha Nascimento dá um show! Sua atuação é para quem tem fôlego. Fiquei ligada o tempo todo e profundamente tocada em muitos momentos. Aysha consegue dar uma alegria à personagem, que se mistura com a tristeza presente em muitas das situações e com o medo da violência anunciada assim que a peça começa. Uma atuação que mexe com as vísceras, que impacta no centro do corpo.

Ficha Técnica

Idealização e dramaturgia: Jhonny Salaberg
Direção: Naruna Costa
Atuação: Aysha Nascimento
Musicista em cena: Reblack
Direção musical e composições: Giovani Di Ganzá
Preparação corporal e coreografia: Malu Avelar
Cenografia e figurino: Ouroboros Produções Artísticas – Carolina Gracindo, Thais Dias e Iolanda Costa
Desenho e operação de luz: Gabriele Souza
Sonoplastia e operação de som: Tomé de Souza
Identidade visual: Sato do Brasil
Fotos: Edu Luz e Noelia Nájera
Produção: Washington Gabriel e Corpo Rastreado
Assessoria de Imprensa: Rafael Ferro e Pedro Madeira