Será que existe algum personagem de quem você goste muito?
Talvez seja uma personagem de um livro ou de alguma história que te contaram, pode ser que seja uma personagem de um filme ou de um desenho animado.
Quando eu era criança eu adorava uma personagem de um desenho chamado “Corrida Maluca”.
A proposta de hoje é que você escreva uma carta contando para alguém quem você é, mas você não vai falar sobre você mesmo, mas sim sobre a personagem que você criar.
Imagem disponível em https://sol.sapo.pt/
Você pode escrever esta carta para alguém de verdade, como um amigo, tua avó, uma prima ou teu vizinho. Mas também pode escrever esta carta para outro personagem, por exemplo:
Uma carta do coelho desesperado para o rato desaparecido.
Uma carta da menina de tranças para o tio navegador.
Uma carta do príncipe do gelo para a princesa do fogo.
Nesta carta você vai contar sobre como esta personagem vive, o que gosta, que roupas usa, o que come e quaisquer outras coisas que vier na tua cabeça para inventar.
Depois de inventar tudo escrevendo, você poderá criar este personagem com o corpo, usando um figurino para ele ou ela e fazendo as coisas que ele faria!
Ah! Se você não sabe escrever muito bem, faz uma carta com desenhos que contem sobre esta personagem.
A brincadeira de hoje é de ser um navegador, um pescador, um pirata ou um barqueiro!
O que importa mesmo é que você esteja dentro de um barco.
A primeira coisa a fazer é definir qual o tipo de barco que você quer estar. Pode ser uma canoa, uma lancha, um iate ou um barco antigo, destes da época em que os portugueses navegaram até o Brasil.
Foto de Xochimilco, no México.
Seja o barco que for, você irá entrar dentro dele e já para entrar começa nossa brincadeira!
Espreguice teu corpo, movimente tuas articulações e se prepare para o mar!
Lembre-se que o barco está em permanente movimento, afinal, ele mesmo quando está ancorado, está sobre a água em movimento.
Entre no barco e comece a navegar.
Foto disponível em https://super.abril.com.br/
Você vai se movimentar conforme o barco que escolheu e vai se deslocar pelo mar, indo das areias de uma praia ou de um porto, até uma ilha deserta. No meio do caminho você terá ondas muito grandes para enfrentar, além de possíveis animais marinhos que poderão provocar movimentos indesejados no teu barco.
Nem só de medo é feita esta travessia! Talvez você encontre golfinhos saltitantes ou belas tartarugas marinhas. Um cardume de peixes também é algo encantador de se ver, não é?
Pode colocar teu chapéu de marinheiro e cuidado para não enjoar, porque o barco é imaginário, mas os teus movimentos serão reais.
Carnaval chegando e muita gente escolhendo a fantasia! E qual a diferença de fantasia para figurino? Por que no teatro falamos em figurino e quando vamos para o carnaval ou a uma festa chamamos de festa a fantasia?
Se você parar para pensar nos bailes de carnaval ou nos blocos na rua, em quais fantasias pensará?
Possivelmente virá à tua cabeça uma fantasia de pirata, de colombina, de odalisca, de médico ou muitas outras não tão tradicionais, como as dos personagens famosos de quadrinhos ou filmes, como Homem-Aranha, Batman, Mulher-maravilha. É possível que vejamos nas ruas fantasias sobre personagens do momento, no ano passado uma das mais concorridas foi a usada na série “A casa de papel”.
O que podemos observar nas fantasias que se diferenciam de um figurino é o fato de que elas buscam representar, muitas vezes da forma mais parecida possível, um personagem que é um tipo, que traz estereótipos relacionados, que não se caracteriza por suas particularidades, mas que se apresenta de forma generalizada.
Se utilizamos o pirata como exemplo, podemos imaginar que será alguém com um chapéu característico, possivelmente com um tapa-olho, com camisa branca e calça preta, também pode ser vermelha, provavelmente com um colete. E, ainda que no carnaval isto não se confirme, com cara de mau!
Nos personagens teatrais temos alguns piratas famosos, como o do Peter Pan, que embora mantenha boa parte das características estereotipadas de um pirata, tem também as suas especificidades e poderá ser reconhecido como tal, mesmo que não esteja com um figurino igual ao dos piratas estereotipados.
Foto de Denys Flores, disponível em cialeplatdujour.com
A construção de um figurino ocorre junto com toda a construção de um personagem, ou ao menos assim deveria ser. Mesmo que o figurino seja elaborado por um figurinista, sem a colaboração do ator ou atriz que representa a personagem, este figurinista deverá estar a par da concepção do espetáculo, para que a roupa utilizada colabore na composição feita por quem a representa.
A fantasia dispensa tanta elaboração, nos vestimos com uma roupa que já traz em si as características estereotipadas deste personagem e pode ser a mesma fantasia para um grupo de pessoas, que não há nenhum problema nisto, muito pelo contrário, quase sempre é diversão garantida.
E como o carnaval já está para começar, escolha tua fantasia e divirta-se!
Imagens das fantasias disponíveis em modafantasia.com
Imagem disponível em https://www.clausvonoertzen.com/works/
Como acontece?
Inicie esta proposta com todos os participantes deitados de forma relaxada. Informe que colocará diferentes sons e que eles devem imaginar uma cena para cada som colocado. É importante que sejam escolhidas músicas diferentes e também sons variados, como do fundo do mar ou de uma britadeira furando o chão. Depois deste momento de escuta imaginativa, faça uma roda e peça que compartilhem as imagens provocadas pelos sons. Esta conversa é muito interessante para que o grupo possa perceber que os estímulos sonoros não causam as mesmas imagens mentais, nem as mesmas sensações.
Depois desta primeira proposta, forme grupos e dê uma mesma orientação para uma cena improvisada, que pode ser cotidiana ou fantástica, o que importa é a possibilidade de perceberem a maneira pela qual o som interfere na cena.
Alguns exemplos de cenas possíveis são: um jantar em família, uma viagem em um foguete, uma caminhada na floresta, uma reunião de trabalho etc.
Cada grupo irá definir quem é quem na cena e algumas referências espaciais. Lembre-se que será a mesma cena para todos, o que vai mudar é o som que será tocado em cada uma delas.
Depois de feitas todas as improvisações, converse novamente com todos questionando quais as interferências decorrentes do som.
Para continuar
Uma possibilidade de desdobramento desta proposta é de que seja dado um sentimento predominante para a cena e cada grupo escolha a música ou o som que será utilizado para auxiliar na composição da cena e na caracterização do sentimento proposto.
A motivação de postar esta peça veio dos dois posts anteriores, nos quais falo sobre o silêncio na cena.
Esta peça foi escrita por mim em 1998, quando eu morava em Barcelona e pesquisava as possíveis relações do uso da proposta de Rudolf Laban no preparo do ator para a cena.
Rudolf Laban foi um teórico da dança e do movimento, e em suas pesquisas definiu quatro fatores de movimento: tempo, espaço, fluência e peso/força. A combinação destes fatores geram diferentes qualidades de movimento, chamadas por ele de dinâmicas de movimento. São oito as dinâmicas possíveis: bater, cortar, pulsar, sacudir, pressionar, torcer, deslizar e flutuar.
A explicação sobre este estudo seria longa, mas os nomes das ações são autoexplicativos, sendo possível compreender qual o movimento utilizado.
Realizo esta pequena introdução sobre o estudo de Laban pois nesta peça fiz uso desta nomenclatura para definir as diferentes qualidades de movimento.
Nesta leitura é possível perceber um texto teatral que propõe a cena e a movimentação dos atores sem que haja nenhuma fala. Espero que você faça esta leitura e consiga imaginar a cena, pensando em diferentes soluções teatrais para uma possível montagem deste texto dramatúrgico.
Foto disponível em https://pixabay.com/pt
MOINHO SEM VENTO
Obra gestual em um ato
Personagens:
Carlos
Luiza
Coro de oito mulheres
A peça se passa em 1998, Carlos tem 33 anos e Luiza, 35.
Um quarto que contém uma cama de casal, uma cadeira e uma mesa. A cama é colocada no fundo do palco, mas deixando espaço para que os atores se movimentem por trás. A mesa é colocada na parede esquerda, em frente, e a cadeira na parede direita. A porta da quarto fica ao lado da cadeira. Um coro de mulheres de costas, todas estão penduradas no teto por suas barrigas de mulheres grávidas.
CARLOS: Com um papel em sua mão direita, anda da cadeira para a mesa, com passo direto, rápido e forte. A cada cinco passos, para, dobra o papel que tem nas mãos quase rasgando, olha na direção da porta e retorna a andar.
CORO: (de costas) Não queira protegê-la, Carlos, não tente.
LUIZA: Aparece de pé na porta, que está ao lado da cadeira.
Todo o CORO gira de tal maneira que se vê a barriga de todas as mulheres.
CORO: Passa a mão direita sobre a barriga, desenhando a redondeza de sua gravidez com movimentos de flutuar e se abraça, olhando sua barriga, com um movimento de pulsar, tornando a flutuar, duas vezes seguidas. Para de movimentar e mantém as mãos na barriga, olhando para Luiza.
LUIZA: Entra no quarto, para depois de dar dois passos, passa a mão em sua barriga com o mesmo movimento do coro e estende as mãos na direção de Carlos.
CARLOS: Dá um giro, ficando de costas para Luiza, apoia as duas mãos na mesa e vai lentamente apoiando os cotovelos, o peito, até se ajoelhar. Repete este mesmo movimento cada vez com mais velocidade.
LUIZA: (enquanto Carlos se ajoelha) Corre por todo o quarto, saltando a cadeira e por cima da cama, com movimentos rápidos e leves. Suas duas mãos sobem pela barriga, giram (como um moinho) desde o mais próximo de seu corpo até o mais distante, para depois se abrir e voltar para a barriga.
LUIZA: Para diante de Carlos, gira-o para si, pega suas mãos e as coloca sobre sua barriga.
CARLOS: Tira as mãos, com movimento forte e rápido.
LUIZA: Afasta seu corpo o máximo possível de Carlos, sem dar nenhum passo e para congelada com as mãos sobre a barriga.
CARLOS: Passa as mãos sobre a barriga de Luiza, com movimentos de pressionar, de cima para baixo.
CORO: Faz movimentos de proteção ao seu corpo, intercalados com movimentos de afastar qualquer pessoa que se aproxime, olhando para o lado, com medo.
LUIZA: Dá quatro passos para trás e abraça com força a própria barriga.
CARLOS: Caminha lentamente em direção à Luiza e passa novamente as mãos sobre sua barriga.
LUIZA: Dá dois passos para trás, abraçando sua barriga, com menos força.
CARLOS: Caminha lentamente em direção à Luiza e passa novamente as mãos sobre sua barriga, com mais força.
LUIZA: Dá um passo para trás e abraça sua barriga sem força alguma.
CARLOS: Caminha lentamente em direção à Luiza e passa novamente as mãos sobre sua barriga, com mais força.
LUIZA: Deixa de caminhar, continua abraçada a sua barriga.
CARLOS: Repete incessantemente, cada vez com mais força, o movimento de passar as mãos “limpando” sua barriga.
LUIZA: Vai lentamente, mudando o abraço na barriga para os seios, até chegar na cabeça, em um abraço que cobre seus olhos.
CORO: Congela o movimento com os braços deixados ao lado do corpo e as pernas soltas. O rosto e todo o corpo não demonstram nenhuma força muscular, somente a suficiente para manter-se ereta.
CARLOS: Pega Luiza pelas mãos, levando-a em direção à porta.
LUIZA: Senta-se na cadeira com movimento direto, pesado e lento.
CARLOS: Retira Luiza da cadeira, empurrando-a pelas costas com movimentos diretos e delicados.
LUIZA: Caminha pesadamente em direção à cama, onde se deita, deixando-se cair (saco).
CARLOS: Tira Luiza da cama, puxando-a pelos braços e a empurra pelo quarto, mantendo uma mão em sua cabeça e a outra no final da coluna.
LUIZA: Se deixa conduzir mantendo as duas mãos tapando a própria boca.
LUIZA e CARLOS: Caminham lentamente pela quarto, cruzando-o inteiro, até sair pela porta. Enquanto caminham, Carlos vai se colocando ao lado de Luiza, a abraça com o braço que estava em suas costas e tapa sua boca com a outra mão, Luiza permanece com as duas mãos na boca.
Saem do quarto.
CORO: Baixa em direção ao chão, com a barriga desfeita. Mantém-se preso ao teto pela barriga, mas não é mais uma barriga de grávida. Em toda a decida mantém o corpo em estado de absoluta tensão e no rosto expressão de medo. Ao tocar os pés no chão, a expressão do rosto se altera para de tristeza e o corpo perde a tensão.
LUIZA e CARLOS: Entram no quarto.
LUIZA: Olha para Carlos e corre para a esquina do quarto mais distante, onde se coloca de costas, com os braços estendidos para trás.
CARLOS: Caminha em direção à Luiza e toca suas mãos.
LUIZA: Gira, olha Carlos e faz o mesmo que antes.
CARLOS: Repete a ação anterior.
LUIZA e CARLOS: Repetem cada vez com mais velocidade esta mesma ação, até que ambos caem no chão.
LUIZA: Levanta-se, pega um dos travesseiros da cama e sai do quarto.
CORO: Solta-se do tecido “barriga” que lhe prende ao teto e sai do quarto caminhando.
CARLOS: Levanta-se do chão com pequenos movimentos de sacudir, que transformam seu caminhar em um avançar cada vez mais desfeito, até chegar ao primeiro tecido pendurado, puxando-o.
CARLOS: Avança para o próximo tecido com movimentos de torcer que vai se intensificando na força e ampliando por todo seu corpo, até puxar o último tecido. Conforme puxa os tecidos, lentamente vai se atando com eles. Começa pelos braços, seguido das pernas e da cabeça. Depois de puxar o último tecido, se coloca em posição fetal.
“O Grito” de Edvard Munch, disponível em http://enciclopedia.itaucultural.org.brComo acontece?
Esta proposta parte do jogo “Tensão silenciosa”, de Viola Spolin.
Inicie solicitando que todos fiquem parados em pé, sem poder se movimentar, nem falar. Vá orientando que gritem com todas as partes do corpo, que gritem com os pés, as pernas etc., até que possam gritar com a voz. Prepare-se para ouvir um grito forte, pois esta proposta acumula muita tensão até que os participantes possam de fato gritar.
Depois desse momento, peça que fiquem em duplas e expressem diferentes emoções sem falar nada, somente pelos gestos e expressões.
Conclua com a realização de cenas improvisadas nas quais cada grupo terá que definir uma cena em que tenham que atuar sem falar. O motivo da ausência da fala poderá variar, pode ser provocada por uma situação externa, como terem que fazer silêncio para não serem descobertos por ladrões em sua casa ou uma motivação interna, como um sentimento que impeça a fala.
Ao pensarmos em uma cena teatral é comum imaginarmos que será permeada pela fala dos personagens, é possível que também nos venha à mente a possibilidade de momentos nos quais a música predomine, mas é pouco comum no nosso imaginário situações nas quais o silêncio tome conta da cena.
Obra de Oswaldo Goeldi, disponível em https://www.bbc.com/portuguese/noticias/2011/04/110412_goeldi_exposicao_londres_fn.shtml
O silêncio é algo pouco frequente não apenas no teatro. No nosso cotidiano somos rodeados de sons e para algumas pessoas o silêncio causa incomodo. Existe até uma frase popular que diz: “Este silêncio ensurdecedor!”. Evidentemente esta frase se refere a dificuldade de estar em uma situação de silêncio, que pode causar um desconforto por inúmeras razões.
Imaginemos uma situação hipotética na qual alguém espera a resposta sobre uma possível doença, ou o momento que antecede a confirmação de que um ente querido está na lista de um acidente fatal. Podemos pensar também em situações menos trágicas, porém intensas, como uma pessoa apaixonada que aguarda a resposta sobre o pedido de casamento, ou um filho que espera a permissão de sua mãe para ir ou não a uma viagem com amigos.
Nestas situações, o silêncio é nosso cúmplice para gerar tensão e expectativa, elementos que fazem parte de muitas cenas teatrais.
O silêncio também poderá ser utilizado como forma de deixar um sentimento ressoando. Há momentos nos quais a fala não consegue exprimir esse eco interior e fazer uso do silêncio é um ótimo recurso teatral para gerar esse efeito.
É importante ressaltarmos que o silêncio sonoro não significa necessariamente a ausência de gestos e de expressões. Muitas ações dramáticas podem ganhar sentido e destaque em uma cena silenciosa. Vale a pena experimentar!
Proponha aos alunos que deitem no chão, ou em colchonetes, e que relaxem por um tempo. Para isso, pode ser colocada uma música, mas será melhor se for feito um relaxamento orientado, no qual eles fechem os olhos e você vá nomeando cada parte do corpo de seus alunos que devem ir se soltando.
A seguir, peça que eles toquem todas estas partes do próprio corpo, que toquem seus pés, pernas, barriga, costas, braços, rosto e mãos. A última parte a ser sentida é a própria mão, onde eles irão perceber de forma mais detalhada cada parte, a temperatura, as marcas, as diferentes texturas.
Ainda com os olhos fechados, peça que alcancem as mãos de um colega, apenas de um e sintam suas mãos, também explorando as diferentes partes, percebendo as texturas, os cantinhos, os detalhes. Este toque deve acontecer como se cada um estivesse contando de si para o outro e, ao mesmo tempo, escutando do outro o que ele te diz. É um movimento de conhecer e deixar conhecer.
Esta proposta pode ser um pouco incomoda, pois gera bastante intimidade. Vale a pena dar um tempo para que os participantes contem como foi participar dela. Mesmo quando trabalhamos com crianças pequenas, permitir que elas verbalizem como se sentiram é dar a oportunidade de que expliquem o que sentiram, o que poderá fazer com que fiquem mais confortáveis com esta situação.
Apesar do estranhamento que pode causar, esta é uma proposta que permite que o grupo se conheça melhor e tenha mais confiança uns nos outros.
A pele de nosso corpo é o que nos contêm e nos separa do restante do mundo. Muito do que sentimos é através da pele. A pele nos informa a temperatura, a textura, se é molhado ou seco… a pele também causa sensações de desejo, de prazer e de muitos outros sentimentos que nos visitam o corpo e a alma no decorrer de um dia.
Tocar e ser tocado é uma experiência necessária não apenas para os humanos. Precisamos de abraços, de dar as mãos, de sentar ao lado. Precisamos do contato pele com pele desde pequeninos. Quando crescemos este contato vai se transformando, vai ganhando contornos e permissões na nossa sociedade. Mas também proibições!
Trabalhar com teatro é trabalhar com o corpo, assim como são os esportes. Ninguém imagina um jogo de basquete no qual os jogadores não se toquem. Neste caso é permitido. Brincar de roda sem dar as mãos é impensável. Aí também é permitido. Mas quantas são as situações nas quais podemos tocar as pessoas com as quais convivemos? Passada a adolescência, são poucas as mulheres que andam de mãos dadas com suas amigas pela rua. Os homens soltam as mãos antes mesmo da adolescência.
O quanto será que é permitido tocar no teatro? Como chegar a esta condição de confiança no grupo na qual o toque possa fazer parte da construção da cena, sem que seja visto como um excesso de sexualização? Este limite não está previamente definido.
Dependendo do grupo com o qual trabalhamos, a possibilidade de tocar e ser tocado será maior ou menor, pois os valores variam e os costumes também. Respeitar os limites do outro é necessário, mas isto não significa que não devemos fazer nada que a pessoa já não tenha feito. Esta afirmação pode parecer contraditória, mas me volto para o corpo para explicar. Quando queremos aumentar a nossa flexibilidade muscular é necessário nos colocarmos em posturas que vão além da flexibilidade confortável, pois assim vamos criando mais espaço na musculatura, mas se forçamos demais de uma vez, teremos uma ruptura, uma lesão que só irá machucar e não provocar o alongamento desejado.
Uso esta metáfora do alongamento para termos em mente as possibilidades de explorar o toque, o corpo a corpo necessário para a cena teatral. É preciso fazer exercícios que promovam o contato, que gerem confiança, que façam com que o diálogo entre os participantes de um grupo seja também pelo corpo, pois será pelo corpo que seremos grupo teatral.
Inicie este trabalho com uma roda na qual cada um irá fazer um pouco de massagem no colega que está na sua frente, invertendo a direção depois de um tempo de modo que a pessoa que recebeu a massagem retribua para seu colega.
Depois disso, separe a turma em trios e proponha o jogo “João bobo”. Esta é uma brincadeira tradicional que pode ser feita com um boneco que é empurrado de um lado para o outro, mas neste caso a proposta é que todos experimentem ser o boneco.
Algumas pessoas podem ter muito medo de ficar em uma situação tão vulnerável e não devemos ignorar seu medo. Uma solução para isso é que nunca se perca o contato corporal, isto é, que quando as mãos de um dos que empurra o “João bobo” irá se soltar, as mãos dos outros já devam estar tocando o corpo.
Os jogadores podem estar muito próximos de quem balança, o que não permitirá um balanço tão grande, e se afastarem pouco a pouco, conforme a confiança ficar maior. Um cuidado necessário é que os trios sejam de pessoas com uma estatura semelhança, não é fácil para uma pessoa muito pequena segurar alguém muito maior que ela. Isso também vale para a diferença de peso, as pessoas muito pesadas devem ficar com as mais fortes, pois do contrário corre-se o risco de não conseguir aguentar o peso.
Uma orientação importante para quem fará o “João Bobo” é manter seu corpo reto e firme, o “João bobo” tem flexibilidade nos tornozelos, mas não é um boneco articulado, que se requebra inteiro.
Se você for trabalhar com adolescentes no período de desenvolvimento pleno, vale ficar atento para a composição dos trios. Meninas em fase de crescimento dos seios são muito sensíveis e pode ser muito dolorido ser empurrada nesta região, sem falar na vergonha e na sensação de invasão que tal fato pode provocar.
Esta é uma brincadeira que promove a confiança quando feita com o cuidado necessário. E diverte muito!
Para continuar
Depois de ter feito em trios, com uma situação de maior controle e o grupo já estiver mais confiante em deixar seus corpos nas mãos dos colegas, faça com o grupo todo, com uma pessoa no centro e uma roda de pessoas para jogá-la e acolhê-la.