Foi enquanto eu esperava um livro de Maiakovski que tive uma epifania sobre a revolução

por Teresa Perrotti

Esse post comenta a peça “Foi enquanto eu esperava um livro de Maiakovski que tive uma epifania sobre a revolução” do Grupo Pano, que esteve em cartaz no Tusp Maria Antônia do final de junho até meio de julho de 2026, sob o ponto de vista das sonoridades presentes nela.

A peça narra a história de quatro camaradas que estão confinados em uma célula revolucionária e que esperam a chegada de um livro de Vladmir Maiakovski, enquanto discutem e refletem sobre maneiras de realizar a revolução socialista no Brasil, ao passo que vão sendo questionados, e se questionam, por diferentes figuras absurdas que aparecem no decorrer da peça, sobre sua própria atitude revolucionária.

A sonoridade dessa peça tem um papel central para o desenrolar da narrativa, visto que além de costurar os diferentes momentos e ações da história, ela também escancara a mensagem que a peça pretende transmitir. O som tece durante a apresentação comentários críticos, irônicos e dramáticos sobre as atitudes dos personagens, criando uma atmosfera épica e lúdica que ajuda a dramaturgia a caminhar para a revelação do final da peça.

Uma característica sonora que me chamou atenção, foi a voz e fala dos personagens em cena. Além de cada personagem ter uma voz marcante e específica que ajuda a criar as figuras que estão sendo representadas, existe uma grande diferença entre as vozes dos personagens mais lúdicos e fictícios, dos personagens mais cotidianos e realistas.

Os quatro camaradas possuíam vozes bastante anasaladas, rápidas e em sua maioria em tons mais agudos, além de seus diálogos terem um ritmo muito marcado e fora da fala cotidiana, o que gerou em alguns momentos dificuldade de entender o que estavam dizendo. Em alguns momentos, os atores faziam uma quebra e agiam como “personagens atores”, mas ainda dentro da ficção da dramaturgia, entretanto suas vozes e a forma que emitem suas falas mudava drasticamente, principalmente os aspectos do timbre, duração e intensidade. Falas que antes eram ditas rapidamente agora soavam em um tempo comum de conversas cotidianas, as vozes anasaladas e estereotipias da atmosfera clownesca sumiram e foram substituídas por vozes mais suaves e a intensidade na qual eram ditas as falas também se alterava: falas que antes soavam em intensidades fortes ou fortíssimas agora estavam no plano do médio piano.

Penso que essas mudanças de características da voz e da fala trouxeram, além de uma clara mudança de personagens, também uma mudança de comportamento e atitudes destes. Enquanto os camaradas tinham muita certeza de suas ideias e queriam propagá-las para o mundo todo, os “personagens atores” tinham muita dúvida de suas ações e até mesmo de sua própria identidade, o que se refletia em suas vozes e diálogos.

Um trecho do livro “A música e sua relação com o ser humano” de Marcelo Petraglia (Editora OuvirAtivo, 2010) fala sobre isso: “A intensidade é também a expressão de uma qualidade emocional. Sentimentos transbordantes normalmente se traduzem em tons fortes, enquanto sentimentos mais íntimos e delicados, em pianos.”. Essa distância do modo de falar também acontece entre os camaradas e personagens mais comuns do “mundo real” como o carteiro, que entra em cena para trazer uma encomenda e quebra com a ficção da dramaturgia, o que pode ser visto pela sua voz e a forma de enunciar as falas.

Outro elemento sonoro extremamente marcante da peça são os ruídos produzidos pelos músicos-intérpretes. Durante toda a peça, uma pequena banda toca diversas músicas e produz sons ao vivo. Esses ruídos aparecem no meio dos diálogos dos personagens para questionar alguma fala, enfatizar uma ideia ou criar uma ambientação para histórias e momentos que os personagens estão narrando.

Estas interferências são muito importantes e transformam a estrutura da peça visto que ajudam a quebrar com a narrativa ficcional da célula revolucionária em alguns momentos e também para ressaltar o absurdo e o teor imagético e fantasioso de muitas cenas, que sem os sons e a música ficariam cruas e confusas para o público.

Em trecho do seu  livro “Sons e(m) cena: parâmetros do som” (Appris Editora, 2019), César Lignelli fala sobre as diferentes capacidades e possibilidades dos ruídos em propostas estéticas: “Por outro lado, a definição de ruído como uma interferência sobre o que, de início, queremos ouvir também ganha um caráter mais complexo em se tratando de propostas estéticas. Nestas, os ruídos podem auxiliar na criatividade e na ampliação de camadas de sentido. São capazes de agir como uma espécie de desorganizadores de clichês, provocadores de novos estilos e até de possíveis entre gêneros artísticos.”

Por fim, as músicas da peça foram o elemento mais marcante e transformador para mim. O espetáculo é recheado de canções, algumas autorais e outras clássicas brasileiras e internacionais. Fazem parte do enredo músicas como “Máscara Negra” e “A Internacional”, hino da União Soviética. As músicas, em sua maioria cantadas pelos próprios atores e músicos, servem em alguns momentos como uma quebra na narrativa, tensionando essa ficção absurda e causando um estranhamento no público, e em outros são uma forma de salientar os discursos que estão proclamando, como um grito de luta que demonstra que somente palavras não são suficientes para expressar algumas ideias, o que dialoga fortemente com uma das reflexões principais da peça, de que não se faz revolução sem poesia.

Além disso, as músicas atuam como uma linha que costura o ritmo e a dinâmica da peça, levando as cenas e os atores para diferentes estados e nunca deixando a energia e o vigor da peça diminuir.  Não à toa que a cena final da peça é um grande monólogo sobre luta e revolução abraçado por uma melodia instrumental de rock que coloca os personagens em um transe apoteótico e leva o público a vibrar junto com eles.

Em síntese, essa é uma peça extremamente sonora e musical, muito rítmica e dinâmica e que não poderia existir sem os elementos citados. Acredito ser um trabalho teatral bastante interessante para estudar o som em cena, visto que explora a sonoridade e a musicalidade de uma forma muito inteligente, ampliando as potencialidades de uma dramaturgia, atuação e encenação que já são muito potentes por si só, mas que não conseguiriam transmitir metade do que transmitem sem os sons e a música.

Foi uma peça que gostei muito de assistir, em que me diverti demais e dei muitas risadas.

Ficha Técnica

Direção: Caio Silviano
Dramaturgia: Caio Silviano
Elenco: Alexandre Maldonado, Alice Guêga, Amanda Quintero, Bernardo Bibancos, Breno Manfredini, Ciça Barros, Henrique Reis, Ian Noppeney, Juliano Veríssimo e Rafael Érnica
Figurino: Ciça Barros
Cenário: Grupo Pano
Adereços: Amanda Quintero e Bruno Britto
Máscaras: Rafael Érnica
Iluminação: Lui Seixas
Trilha sonora e música: Grupo Pano
Produção executiva: Laura La Padula
Contrarregra: Ian Noppeney e Gabriela Sugui
Operação de luz: Gustavo Gonçalo
Operação de som: Tomé de Souza e Camila Cruz
Design gráfico: Ciça Barros
Boneco: José Valdir Albuquerque
Inflável: Infla Power
Fotografias: Everson Verdoão, Gabriela Lemos e Priscila Beal
Realização: Grupo Pano

As imagens dessa publicação foram retiradas do Instagram do Grupo Pano

 

Restinga de Canudos

“E se uma cidade inteira continuasse viva mesmo depois de ser submersa?
Em “Restinga de Canudos”, a @ciadotijolo mergulha nas águas do açude de Cocorobó, na Bahia, para imaginar as histórias, memórias e vozes que permaneceram depois do desaparecimento de Canudos.
Inspirado em um dos episódios mais marcantes da história do Brasil, o espetáculo vai além da narrativa da guerra e do massacre para recriar uma comunidade forte, popular e inventiva, atravessada por encontros, rezas, festas, música e resistência.
Com música ao vivo, cenas intensas e imagens marcantes, a montagem transforma o palco em um espaço de memória, conectando passado e presente em uma experiência sensível e potente.”

O texto acima pode ser encontrado no Instagram da @ciadotijolo e conta um pouco desse espetáculo teatral tão envolvente.

Assisti no SESC Jundiaí e a duração de quase 3 horas foi igual a de festa boa, passou de forma leve. O espetáculo faz desse momento uma celebração, ainda que se remeta a um momento tão triste da história do nosso país. Celebramos o acontecimento teatral, a possibilidade que uma encenação nos dá de participarmos de algo que não vivemos em nossa história pessoal.

A Cia do Tijolo traz em sua história as referências do Teatro Vento Forte, um espaço criado por Ilo Krugli, que foi um espaço de vivência teatral e artística onde o grupo se fez forte, onde o coletivo foi a maneira de aprender e de criar. Essa história presente na memória de parte do grupo e do diretor e ator desse espetáculo, Dinho Lima Flor se evidencia na montagem atual.

Para além da história narrada, a presença dos músicos, parte do grupo, o cenário, o figurino, os objetos de cena, tudo converge para que você participe e se envolva com esse momento.

A atuação de Dinho Lima Flor é “de tirar o chapéu”, mas está bem acompanhado pelo restante do grupo. Dinho também foi premiado como melhor diretor pela APCA. Na apresentação do SESC tive o prazer de ver Baco Pereira no palco, além do querido @marcoscoin.

Fique de olho, siga o grupo e aproveite!

Ficha Técnica:
Criação e dramaturgia: Dinho Lima Flor e Rodrigo Mercadante
Direção geral: Dinho Lima Flor
Elenco: Dinho Lima Flor, Rodrigo Mercadante, Karen Menatti, Odília Nunes, Artur Mattar, Jaque da Silva, Danilo Nonato, João Bertolai, Marcos Coin, Dicinho Areias, Jonathan Silva, Juh Vieira
Atriz colaboradora: Vanessa Petroncari
Movimento e corpo: Viviane Ferreira
Composições originais: Jonathan Silva
Direção musical: Cia. do Tijolo e William Guedes
Desenhos: Artur Mattar
Cenário: Cia. do Tijolo e Douglas Vendramini
Assistência de cenotécnica: Tati Garcez e Gonzalo Dorado
Figurino: Cia. do Tijolo e Silvana Marcondes
Iluminação: Cia. do Tijolo e Rafael Araújo
Som: Hugo Bispo
Fotos: Alécio Cézar e Flavio Barollo
Filmagem da peça: Flavio Barollo
Design gráfico: Fábio Viana
Assessoria de imprensa: Rafael Ferro e Pedro Madeira
Direção de produção: Garcez Produções (Suelen Garcez)
Produção executiva: Suelen Garcez
Assistência de produção: Tati Garcez

As fotos desse post estão no site do grupo: https://www.ciadotijolo.com.br/canudos

Fios que puxam o corpo

Para quem?

Todas as idades

Condições necessárias

Um espaço amplo, que permita movimentação corporal.

Materiais necessários

Nenhum.

 

 

Como acontece?

Essa proposta explora a consciência corporal e a percepção sobre de onde surge o movimento em cena.

Ela se inicia com um aquecimento no qual todos irão movimentar as articulações do corpo. Esse aquecimento tem a função de que o corpo se faça presente e no caso das crianças pequenas, que possamos nomear as partes do corpo.

Depois disso faremos caminhadas pelo espaço, intercalando uma caminhada neutra, onde cada um caminha sem nenhuma intensão e o caminhar como se o corpo estivesse sendo puxado por fios.

Serão quatro pontos que os fios imaginários estarão presos no corpo: a região do púbis, o centro do tórax, na altura do coração, a garganta e o centro da testa, no meio das sobrancelhas.

Para os adolescentes pode ser motivo de grande agitação falar da região do púbis, então pode ser explicado como onde termina a barriga.

Cada uma dessas regiões dá uma intensão diferente para o caminhar. Essa proposta está relacionada aos chacras e eu vivenciei em uma oficina do Grupo Galpão. A região do púbis está relacionada a força sexual, nosso lado mais animal; a do tórax está relacionado às emoções, a da garganta se relaciona com a comunicação e a da testa com as ideias, os pensamentos.

Essas diferentes intensões podem ser explicitadas para os grupos que terão condições de compreender e serem maneiras de que essas diferentes intensões possam ser sentidas.

Um ensaio sobre a cegueira

Sabe um livro que você adora? Pois é esse o caso do livro “Ensaio sobre a cegueira” de José Saramago.

E que tal juntar esse livro com um grupo de teatro que faz peças incríveis?

Pois é, é sobre isso que esse post fala, sobre a montagem feita pelo Grupo Galpão dessa peça que se chama “Um ensaio sobre a cegueira”.

Assisti essa montagem no SESC Jundiaí, em março de 2026 e tive o prazer de não apenas estar na plateia, mas também estar em cena, já que a montagem prevê a participação de parte do público, previamente convidado e orientado sobre essa participação.

Essa história nos fala sobre uma epidemia de cegueira e mostra diferentes aspectos presentes na nossa sociedade em uma condição como essa. Caso você não tenha lido o livro, nem visto o filme, poderá agora ver a peça.

O grupo galpão tem em sua longa trajetória a característica incomum de ser um grupo que convida diretores para seus trabalhos e dessa vez quem assumiu a direção foi o Rodrigo Portella.

A intensidade dessa história foi traduzida de uma maneira belíssima pelo grupo, em uma montagem que tem o cuidado com os elementos da cena, que não se perde no exagero, que não coloca a plateia no desconforto da violência explícita, mas emociona pelas cenas que traduzem o sofrimento humano.

Como um grupo que “sem fórmulas e sem métodos definidos, o Galpão sempre pautou sua prática por um teatro de grupo, que não só monta espetáculos, mas que se propõe também a uma permanente reflexão sobre a ética do ator e do teatro, inserido em um amplo universo social e cultural”, esse espetáculo é mais um presente para nós.

Aproveite as próximas apresentações por cidades de São Paulo e siga o grupo nas redes sociais para saber quando você poderá vê-lo: https://www.instagram.com/grupogalpao/?hl=pt-br. Para conhecer mais sobre seu trabalho, acesse aqui o site do grupo.

Próximas apresentações

⭐ BAURU- SP
20 e 21 de março
(sexta-feira e sábado, às 20h)

⭐ BIRIGUI – SP
27 e 28 de março
(sexta-feira e sábado, às 19h)

Direção

Rodrigo Portella

Diretores Assistentes

Georgina Vila Bruch e Paulo André

Direção musical, trilha original e paisagem sonora

Federico Puppi

Cenografia

Marcelo Alvarenga – Play Arquitetura

Figurino

Gilma Oliveira

Interlocução Dramatúrgica

Bianca Ramoneda

Iluminação

Rodrigo Marçal e Rodrigo Portella

Adereços

Rai Bento

Visagismo

Gabriela Dominguez

Desenho sonoro, programação e mixagem

Fábio Santos

Assistência de direção

Zezinho Mancini

Assistência de figurino

Caroline Manso

Assistência de cenografia

Vinícius Bicalho

Construção cenário

Artes Cênica Produções

Costuras

Danny Maia

Fotos

Igor Cerqueira e Mateus Lustosa

Registro e cobertura audiovisual

Luiz Felipe Fernandes

Comunicação

Letícia Leiva e Fernanda Lara

Arte gráfica

Filipe Lampejo e Rita Davis

Consultoria de Acessibilidade

Oscar Capucho

Operação de luz

Rodrigo Marçal

Operação de som

Fábio Santos

Técnico de Palco

William Bililiu

Assistente técnico

William Teles

Assistente de produção

Zazá Cypriano

Produção Executiva

Beatriz Radicchi

Direção de Produção

Gilma Oliveira

Produção

Grupo Galpão

A recaída

Cair novamente, ter a sensação de repetir o mesmo equívoco, o mesmo sofrimento, as mesmas dificuldades. Quem nunca?

E quando a recaída é coletiva, é de um país e podemos pensar que caímos como humanidade em abismos que se apresentam novamente e dos quais parece que poderíamos escapar, mas não escapamos.

Falar sobre o sofrimento causado pela pandemia de Covid 19 é uma dor que para mim ainda está a flor da pele. Fico sob tensão com as memórias deste período, tanto pelas situações pessoais vividas, como pelas perdas coletivas, pelos números de mortes absurdos que vivenciamos diariamente em um looping atualizado com uma profundidade cada dia maior nos noticiários.

Nessa peça podemos ver, com a atuação potente de Victória Camargo, uma narrativa pessoal, de uma mulher que sofre uma perda insuportável. É a segunda perda desestruturante de sua vida, que relaciona sua dor a dor de tantos outros que viveram a ditadura de 64 e o descalabro de um governo violento, que levou ao número de mortes em 2020/21. Caímos nas mãos dos mesmos, nos jogamos por meio de uma escolha eleitoral deprimente, para o mesmo grupo político da ditadura e sofremos as consequências dessa queda.

Com direção de Marcelo Braga, o texto de Filipe Doutel & Victória Camargo, ganha em delicadeza pelos detalhes da cena. A contenção do espaço em oposição à explosão das emoções da personagem delimita, dá contorno, assim como a escolha dos objetos com os quais ela se relaciona. Victória nos presenteia com seu corpo que se transforma, suas expressões que nos fazem ver o sofrimento carregado, o amor pelos que partiram e a força ganha pela possibilidade de estar novamente em cena.

Para quem vive do teatro, essa peça reafirma o quanto essa linguagem é capaz de nos salvar, seja na individualidade, seja como humanidade.

Ainda não viu? Aproveita que dá tempo!

⚙️ Serviço
🗓️ Temporada: 1º a 23 de novembro de 2025
⏰ Sábados às 20h | Domingos às 19h
📍 Atelier Cênico – Rua Fortunato, 241, Vila Buarque, São Paulo
🎟️ Ingressos: R$80 (inteira) | R$40 (meia) — venda online via Sympla
⏱️ Duração: 50 min
👨🏽‍🦱 Classificação: 12 anos
♿ Acessibilidade para cadeirantes
💺Capacidade: 50 lugares

 

🎬 Ficha Técnica
Dramaturgia — Filipe Doutel & Victória Camargo
Direção — Marcelo Braga
Elenco — Victória Camargo
Cenografia e Figurino — Stephanie Fretin
Trilha Sonora — Daniel Ganjaman
Desenho de Luz — Rodrigo Palmieri
Operação de Luz — Maurício Shirakawa / Lê Carmona
Operação de Som — Maria Fernanda Assumpção
Produção — Leandro Ivo (Fulano’s Produções Artísticas)
Mídias Sociais — Laura de Carvalho
Assessoria de Imprensa — Pombo Correio
Fotos — Fábio Gansl / Marcelo Silva

A caminhada dos porquinhos

Para quem?

Crianças de Educação Infantil e Fundamental I

Condições necessárias

Um espaço amplo, que permita movimentação corporal.

Materiais necessários

Nenhum.

Como acontece?

Você conhece a história dos três porquinhos, não é? Se não conhece, pode ouvi-la no vídeo-livro que você pode adquirir aqui.

A primeira parte desta proposta acontece com as crianças ouvindo a história, seja pelo vídeo-livro, seja contada por alguém.

Depois disso a ideia é explorar as maneiras pelas quais os porquinhos caminham. Para isso é mais interessante explorar o imaginário das crianças e observar as soluções encontradas por elas e depois, caso queira, mostrar fotos ou vídeos de porcos caminhando.

Essa proposta busca possibilitar para as crianças a percepção sobre as diferentes maneiras de caminhar, assim como a observação do que elas fazem quando caminham, como seus pés pisam no chão, qual parte do pé pisa primeiro, se sentem pressão em alguma parte mais do que na outra ou também como o tronco se movimenta.

Toda essa percepção pode ser utilizada para modificar sua maneira de caminhar, quando estiver caminhando como porquinhos. Também vale explorar o que muda quando os porquinhos estão fugindo de uma casa para outra ou quando estão brincando de roda.

Caso você queira conhecer outras propostas teatrais que partem dessa mesma história, veja aqui as sugestões da coleção Histórias para Criar.

Como escolher qual peça assistir

Os critérios para escolha de qual peça assistir são muito variáveis e vale a pena estar atento a eles, para que você não assista algo que não te interessa.

Para quem mora em cidades grandes, como São Paulo, a proximidade pode ser um fator importante. Para quem mora em cidades pequenas, muitas vezes a diversidade é também pequena e então, a escolha será pela única opção. Em todos os casos, o valor a ser pago é um fator a considerar, mas estes critérios não se relacionam à qualidade da apresentação e sim a praticidade e viabilidade.

Na Companhia de mulheres em “Não se esqueça de mim”

Talvez você conheça a playlist “Perseguindo um artista” do canal do Circularte Educação, se não conhece, acesse este link no final da leitura e veja tudo o que tem por lá.

Perseguir um artista pode ser um dos critérios para escolher qual peça ver e no caso do teatro essa perseguição pode ser de um grupo teatral, de uma atriz ou um ator, de um diretor, de uma cenógrafa, iluminador, sonoplasta ou figurinista. Isto é, você pode escolher porque gosta muito do trabalho de qualquer um destes artistas que fazem parte da montagem de uma peça e ter o interesse em acompanhar seu trabalho. Essa escolha te permitirá observar como o trabalho desse artista ou desse grupo de artistas vai se desenvolvendo ao longo do tempo, o que é muito interessante de perceber.

Outro ponto a ser considerado é o texto. Você pode escolher assistir uma peça porque gosta muito daquele texto, ou porque é um texto famoso, um clássico da dramaturgia ou um novo autor e você quer ver como esse texto se transforma em cena, em peça. Sempre há o risco de ser feita uma péssima montagem com um texto maravilhoso, mas tendo um bom texto, a chance de a peça ser boa já aumenta.

Outro aspecto que pode definir a tua escolha é o tema. Uma peça que aborde uma temática que te interessa poderá contribuir muito para as tuas reflexões sobre esse assunto.

Por fim, a indicação também é um bom critério. Se você sabe que aquela amiga tem um gosto para o teatro parecido com o seu ou se gosta do que escreve um crítico teatral, muitas vezes vale a pena conferir o que foi sugerido. Nesse mesmo sentido, a companhia de alguém ou de um grupo pode ser um bom motivo para sair de casa, afinal qualquer programa bem acompanhada é muito melhor.

Explorando uma tragédia grega

Para quem?

Adolescentes e adultos

Condições necessárias

Uma sala com espaço amplo, que permita exploração teatral.

Materiais necessários

Texto a ser utilizado. É possível escolher qualquer tragédia grega como ponto de partida, mas sugiro Prometeu Acorrentado de Ésquilo. A sugestão desta peça deve-se ao fato de Prometeu ter feito uma ação em desobediência a Zeus, dando o fogo para os humanos.

Como acontece?

Primeiro momento: leitura da peça em voz alta, com os alunos revezando os personagens. Uma possibilidade é de que vários alunos leiam sempre o coro.

Segundo momento: Improvisar sobre as diferentes maneiras pelas quais Prometeu se movimenta ao estar acorrentado.

Terceiro momento: Escolher algumas frases da peça para serem ditas e explorar a maneira pela qual serão ditas

Quarto momento: Fazer uma conversa sobre a motivação de Prometeu para doar o fogo para os humanos e sobre quais ações seriam equivalentes na atualidade.

Caso você queira conhecer um pouco sobre outras tragédias gregas, veja os posts de Édipo Rei, Édipo em Colono, Os Persas e Medeia.

Medeia

 

 

Inicio este post com um trecho da peça Medeia, escrita por Eurípedes em 431 a.C., na publicação feita pela Editora 34, de 2010.

A intensidade dessa peça é tanta que irá motivar a escrita de duas outras peças, “Gota d’Água” de Chico Buarque e Paulo Pontes de 1975 e “Mata teu pai” de Grace Passô, de 2018, além de filmes e da peça de Consuelo de Castro, baseada no mito homônimo. Você pode assistir neste link uma explicação detalhada sobre o enredo da peça de Eurípedes.

É um texto que fala sobre o sofrimento decorrente da traição feita por Jasão, trocando Medeia por outra mulher, mais jovem e filha do rei. Mas não pensem encontrar em Medeia uma mulher fraca, lamuriosa. Medeia é vingativa e sua vingança fará com que essa tragédia grega faça jus a essa denominação, com uma sequência de mortes que não permitem que ninguém termine feliz.

Beth Coelho em montagem de Medeia

Essa tragédia segue atual, não apenas pelo sofrimento decorrente da ruptura de uma relação de amor, mas pelo comprometimento vivido pelos filhos, quando a separação é vivenciada de forma vingativa. No diálogo abaixo, depois de Medeia ter matado os filhos, podemos ver parte desse sofrimento:

Os Persas

A peça “Os Persas” escrita por Ésquilo e representada em 472 a.C. é uma das noventa peças escritas por esse autor e nos conta sobre a batalha de Salamina, na qual os gregos derrotaram os persas.

Na publicação da Editora Zahar, podemos ler em sua introdução:

“Ésquilo, o mais antigo dos três grandes dramaturgos gregos e criador da tragédia em sua forma definitiva, nasceu em Elêusis, nas proximidades de Atenas, em 525 ou 524 a.C.; combateu nas batalhas de Maratona e Salamina contra os invasores persas de sua pátria, e morreu no ano de 456 a.C.

Ele escreveu cerca de 90 peças, das quais nos restam completas as Suplicantes, encenadas em data incerta (entre 499 e 472 a.C.); Os Persas, representados em 472 a.C.; os Sete Chefes contra Tebas (em 467 a.C.); o Prometeu Acorrentado (data incerta, provavelmente próxima ao ano de estréia de Oréstia); o Agamêmnon, as Coéforas e as Eumênides (que compõem a trilogia conhecida como Oréstia), representadas pela primeira vez em 458 a.C., todas estreadas em Atenas.”

No decorrer do texto vamos acompanhando o sofrimento dos Persas, inicialmente pela fala da rainha, do Coro e do Corifeu e depois pelo relato do mensageiro que descreve a maneira pela qual se deu a batalha e de como os persas foram derrotados. Segue um pequeno trecho deste relato:

 

Screenshot

 

“Iniciou a nossa perdição, senhora,

algum espírito perverso ou deus maligno

vindo não sei de onde. Vou contar-te os fatos.

Um grego, com sua armadura ateniense,

veio dizer a Xerxes que quando caíssem

as trevas da noite soturna, as forças gregas

desistiriam de enfrentar os atacantes

e ocupando seus bancos nas trirremes rápidas

se esforçariam por salvar-se, cada um

como pudesse, numa fuga inesperada.

Depois de ouvir essa notícia o rei Xerxes,

sem suspeitar de uma atitude astuciosa,

mandou aos chefes de todas as suas naus

a seguinte mensagem: quando o sol poente

já não tivesse luz para aquecer a terra

com seus raios e as sombras se disseminassem

pelo alto éter consagrado, os comandantes

teriam de alinhar quase todas as naus

em três fileiras, no intuito de fechar

saídas e passagens; as naus reservadas

patrulhariam a ilha de Salamina.

E mais: se os gregos conseguissem escapar

da morte desastrosa e achassem no mar

alguma rota de evasão, os responsáveis

seriam degolados. Assim falou Xerxes.

Um coração feroz ditou-lhe tais palavras

sem ter a mínima noção, naquele instante,

da sorte amarga que os deuses lhe reservavam.”

Screenshot

A peça segue com a aparição do fantasma do rei morto, pai de Xerxes e depois o retorno de Xerxes, que irá terminar de esclarecer e relatar os ocorridos nessa derrota.

Em todo o texto podemos observar a visão de um grego a respeito de outro povo, os persas, além da estrutura da peça, na qual o coro fala de forma lírica. A compreensão do conceito de tragédia pelos gregos antigos também é possível de observar na leitura desse texto, assim como a importância dos deuses em qualquer fato.

Talvez seja um texto estranho, tanto pela linguagem, como pela narrativa de uma batalha que ocorreu há tanto tempo, porém quando você mergulha na leitura consegue imaginar toda a situação narrada, assim como o sofrimento pela destruição de seu país. Vale a leitura!