Explorando uma tragédia grega

Para quem?

Adolescentes e adultos

Condições necessárias

Uma sala com espaço amplo, que permita exploração teatral.

Materiais necessários

Texto a ser utilizado. É possível escolher qualquer tragédia grega como ponto de partida, mas sugiro Prometeu Acorrentado de Ésquilo. A sugestão desta peça deve-se ao fato de Prometeu ter feito uma ação em desobediência a Zeus, dando o fogo para os humanos.

Como acontece?

Primeiro momento: leitura da peça em voz alta, com os alunos revezando os personagens. Uma possibilidade é de que vários alunos leiam sempre o coro.

Segundo momento: Improvisar sobre as diferentes maneiras pelas quais Prometeu se movimenta ao estar acorrentado.

Terceiro momento: Escolher algumas frases da peça para serem ditas e explorar a maneira pela qual serão ditas

Quarto momento: Fazer uma conversa sobre a motivação de Prometeu para doar o fogo para os humanos e sobre quais ações seriam equivalentes na atualidade.

Caso você queira conhecer um pouco sobre outras tragédias gregas, veja os posts de Édipo Rei, Édipo em Colono, Os Persas e Medeia.

Medeia

 

 

Inicio este post com um trecho da peça Medeia, escrita por Eurípedes em 431 a.C., na publicação feita pela Editora 34, de 2010.

A intensidade dessa peça é tanta que irá motivar a escrita de duas outras peças, “Gota d’Água” de Chico Buarque e Paulo Pontes de 1975 e “Mata teu pai” de Grace Passô, de 2018, além de filmes e da peça de Consuelo de Castro, baseada no mito homônimo. Você pode assistir neste link uma explicação detalhada sobre o enredo da peça de Eurípedes.

É um texto que fala sobre o sofrimento decorrente da traição feita por Jasão, trocando Medeia por outra mulher, mais jovem e filha do rei. Mas não pensem encontrar em Medeia uma mulher fraca, lamuriosa. Medeia é vingativa e sua vingança fará com que essa tragédia grega faça jus a essa denominação, com uma sequência de mortes que não permitem que ninguém termine feliz.

Beth Coelho em montagem de Medeia

Essa tragédia segue atual, não apenas pelo sofrimento decorrente da ruptura de uma relação de amor, mas pelo comprometimento vivido pelos filhos, quando a separação é vivenciada de forma vingativa. No diálogo abaixo, depois de Medeia ter matado os filhos, podemos ver parte desse sofrimento:

Os Persas

A peça “Os Persas” escrita por Ésquilo e representada em 472 a.C. é uma das noventa peças escritas por esse autor e nos conta sobre a batalha de Salamina, na qual os gregos derrotaram os persas.

Na publicação da Editora Zahar, podemos ler em sua introdução:

“Ésquilo, o mais antigo dos três grandes dramaturgos gregos e criador da tragédia em sua forma definitiva, nasceu em Elêusis, nas proximidades de Atenas, em 525 ou 524 a.C.; combateu nas batalhas de Maratona e Salamina contra os invasores persas de sua pátria, e morreu no ano de 456 a.C.

Ele escreveu cerca de 90 peças, das quais nos restam completas as Suplicantes, encenadas em data incerta (entre 499 e 472 a.C.); Os Persas, representados em 472 a.C.; os Sete Chefes contra Tebas (em 467 a.C.); o Prometeu Acorrentado (data incerta, provavelmente próxima ao ano de estréia de Oréstia); o Agamêmnon, as Coéforas e as Eumênides (que compõem a trilogia conhecida como Oréstia), representadas pela primeira vez em 458 a.C., todas estreadas em Atenas.”

No decorrer do texto vamos acompanhando o sofrimento dos Persas, inicialmente pela fala da rainha, do Coro e do Corifeu e depois pelo relato do mensageiro que descreve a maneira pela qual se deu a batalha e de como os persas foram derrotados. Segue um pequeno trecho deste relato:

 

Screenshot

 

“Iniciou a nossa perdição, senhora,

algum espírito perverso ou deus maligno

vindo não sei de onde. Vou contar-te os fatos.

Um grego, com sua armadura ateniense,

veio dizer a Xerxes que quando caíssem

as trevas da noite soturna, as forças gregas

desistiriam de enfrentar os atacantes

e ocupando seus bancos nas trirremes rápidas

se esforçariam por salvar-se, cada um

como pudesse, numa fuga inesperada.

Depois de ouvir essa notícia o rei Xerxes,

sem suspeitar de uma atitude astuciosa,

mandou aos chefes de todas as suas naus

a seguinte mensagem: quando o sol poente

já não tivesse luz para aquecer a terra

com seus raios e as sombras se disseminassem

pelo alto éter consagrado, os comandantes

teriam de alinhar quase todas as naus

em três fileiras, no intuito de fechar

saídas e passagens; as naus reservadas

patrulhariam a ilha de Salamina.

E mais: se os gregos conseguissem escapar

da morte desastrosa e achassem no mar

alguma rota de evasão, os responsáveis

seriam degolados. Assim falou Xerxes.

Um coração feroz ditou-lhe tais palavras

sem ter a mínima noção, naquele instante,

da sorte amarga que os deuses lhe reservavam.”

Screenshot

A peça segue com a aparição do fantasma do rei morto, pai de Xerxes e depois o retorno de Xerxes, que irá terminar de esclarecer e relatar os ocorridos nessa derrota.

Em todo o texto podemos observar a visão de um grego a respeito de outro povo, os persas, além da estrutura da peça, na qual o coro fala de forma lírica. A compreensão do conceito de tragédia pelos gregos antigos também é possível de observar na leitura desse texto, assim como a importância dos deuses em qualquer fato.

Talvez seja um texto estranho, tanto pela linguagem, como pela narrativa de uma batalha que ocorreu há tanto tempo, porém quando você mergulha na leitura consegue imaginar toda a situação narrada, assim como o sofrimento pela destruição de seu país. Vale a leitura!

Buraquinhos ou o vento é inimigo de Picumã

Buraquinhos é dessas peças que você começa a ler e vai até o final, meio sem fôlego, perdendo o ar, com a sensação de estar correndo junto.

A leitura te leva a imaginar tanto as possibilidades de encenação, como dos muitos lugares por onde o personagem vai correndo.

Você pode ler o texto publicado pela Editora Cobogó ou você pode ver o vídeo publicado pelo SESC Pompéia nesse link

No Itaú Cultural é possível ler sobre a peça: “O ponto de partida acontece quando um menino negro, morador de Guaianases, bairro na zona leste de São Paulo, vai à padaria e leva um “enquadro” de um policial. A partir daí ele começa a correr e não para mais, o que o leva a uma maratona pelo mundo, passando por países da América Latina e da África.

Buraquinhos ou O vento é inimigo do picumã é idealizada por Jhonny Salaberg, ator, dramaturgo, bailarino, arte-educador e membro fundador do coletivo Carcaça de Poéticas Negras. O grupo artístico desenvolve uma pesquisa de linguagem sobre o corpo negro urbano e suas diásporas, o genocídio e o etnocentrismo na contemporaneidade e a carcaça de símbolos da ancestralidade negra.”

A peça foi super premiada e ficou 5 anos em cartaz. No dia 10 de abril de 2022, no Facebook da peça foi feita uma publicação que dizia: “No ano de aniversário de 5 anos em cartaz, voltamos pra contar essa história que, inevitavelmente, permanece atualizada. Por todos os corpos e corpas pretes ceifados pelo estado! Visto por mais 6.000 pessoas, premiado em 8 categorias de teatro, referenciado em Universidades Federais/Estaduais, Instituições, Escolas de Teatro no Brasil e na Europa (Noruega e França)”

Você também pode ver muito do que o grupo fez no Instagram, neste link.

São muitos os motivos para que você leia o texto, mas o principal é que o texto é bom!

Dizer Sim

A peça de Griselda Gambaro nos coloca dentro de uma situação absurda ou no mínimo estranha, na qual um homem vai a uma barbearia e aceita todas as imposições do barbeiro.

No texto de Sara Rojo de la Rosa sobre as obras de Griselda Gambaro ela comenta sobre essa fase ser um momento no qual a dramaturga apresenta “um mundo masculino sem saídas.”

Ao resumir seus comentários, diz: “podemos afirmar que a dramaturgia de Griselda Gambaro, inserida na história latino-americana, assume a problemática do poder com uma enunciação ciente de todos os aspectos: políticos, estéticos, genéricos, etc. Cada linguagem experimentada, cada forma empregada e cada signo utilizado estão relacionados a um projeto estético-teatral com fundamentos políticos. Por isso, quando a produção de Griselda Gambaro é rotulada exclusivamente dentro da linha dos criadores do absurdo europeu, sem se contemplar sua proposta teórica global, restringe-se a análise exclusivamente à forma.”

Esse pequeno trecho mostra um pouco desse poder exercido e da submissão opressora vivida pelo homem. A intensidade nessa forma enxuta, nesse texto curto nos oferece um tanto do que vamos vivendo cotidianamente. De alguma forma sufoca, mas com uma fluidez que te mantem presa ao texto, com vontade de saber da continuidade, do desenrolar e da maneira pela qual esse desfecho será possível.

Ficou com vontade de ler todo o texto, clique aqui e aproveite!

Tio Vania

Anton Tchekhov é o autor desta peça e de outras 13, além de muitos contos e alguns ensaios. Encenada pela primeira vez em 1899 pelo Teatro de Arte de Moscou, “Tio Vania” é uma narrativa que acontece na Rússia czarista, em uma casa no campo e mostra as relações familiares ao redor do protagonista que leva o título.

Para além das relações, sempre complexas, como costumam ser as famílias, Tchekhov nos fala das frustrações pelo não vivido. Ao menos para mim foi o mais marcante nessa peça que apresenta tantos personagens enredados em suas teias de impossibilidades.

Os motivos são diversos, a idade, a falta de dinheiro, a permanência na cidade pequena, a falta de beleza ou as escolhas malfeitas.

Cada qual em sua insatisfação buscando uma solução possível, e improvável, que minimize a frustração pelo que não foi possível até então.

Uma descrição tão pessimista pode parecer que não vale a pena, mas vale sim! O texto é ótimo e as cenas que podem ser imaginadas são fortes.

Fotos deste post são de Guto Muniz da montagem do Grupo Galpão

Mas se você acredita que ler um texto de mais de um século é difícil demais, tenho uma boa notícia! Leia a versão em quadrinhos da Editora Peirópolis!

Os quadrinhos são ótimos, feitos pelo Caco Galhardo, com os personagens dele, já bastante conhecidos pelas tirinhas do jornal. É muito interessante ver a interpretação dos personagens dos quadrinhos para os personagens da peça! Contando desta forma parece confuso, mas é uma delícia de ler.

Faz parte da coleção “Clássicos em HQ”, que tem vários outros títulos interessantes.

Você escolhe como quer ler, se a versão somente do texto ou se a versão quadrinhos, mas não perca este Tchekhov!

À flor da pele

Consuelo de Castro escreveu esta peça em 1969, há mais de 50 anos e a distância que nos separa do momento da escrita pode nos fazer pensar se é um texto que permanece atual, se vale a pena ser lido ou não.

A peça apresenta um casal, em três atos e não há dúvida de que parte dos conflitos apresentados não teriam as mesmas características, ao menos para grande parte das pessoas que vivem atualmente no Brasil e em boa parte do mundo.

A ideia de casamento foi questionada de lá para cá, o divórcio virou fato, ainda que tenha sido somente em 1977 sua aprovação, atualmente ninguém comenta de forma disfarçada o fato de uma mulher ser desquitada ou separada, como acontecia na década de 70.

Apesar das mudanças, muita coisa continua atual: um relacionamento desigual, o homem muito mais velho que a mulher, um ciúme possessivo e o medo da perda doentio.

Registro fotográfico Rodrigo Whitaker Salles

Mas para além do que a peça aborda, o que encanta é a intensidade das cenas, a dramaticidade envolvente.

Yan Michalski na Pequena enciclopédia do teatro brasileiro contemporâneo, fala sobre a autora:

Consuelo de Castro

“Representante destacada da brilhante geração de dramaturgos surgida sob a ditadura, Consuelo de Castro é, entre os autores dessa geração, talvez a que possui o corpo de obra mais volumoso e diversificado. Em comum com os outros, ela tem o sentimento de inconformismo e indignação que perpassa tudo que ela escreve. O que a distingue dos outros é a sua excepcionalmente visceral noção de teatralidade, um diálogo notavelmente colorido, que ela cria com uma espantosa espontaneidade, e uma inquietação que a faz partir sempre em busca de novos caminhos”.

Se ainda não te convenci a ler, leia o pedaço de uma cena e veja se a peça te convence:

 

 

 

 

 

 

À FLOR DA PELE

 CONSUELO DE CASTRO

 

CENÁRIO

Sala única de um apartamento. Móveis modernos e simples. Há uma aparência de completo desleixo. Quadros fora do lugar, garrafas empilhadas no chão, etc. Uma estante de livros. Uma vitrola. Acima da estante aglomeram-se posters coloridos, uma bandeira preta com os dizeres: “Seja realista; peça o impossível”. À direita, um sofá-cama aberto, com lençóis em desalinho. No centro do ambiente, uma mesa e duas cadeiras. Sobre a mesa há uma máquina de escrever, cinzeiros, jornais, livros, copos, uma caveira, tudo na mais perfeita desordem, À esquerda, um armário cheio de roupas de uso próprio e roupas de cena.

PERSONAGENS

 

VERÔNICA: A aluna. Vinte e um anos. Nostalgia da ordem.

MARCELO: O professor. Mais ou menos quarenta e três anos. Desespero   da ordem.

 

PRIMEIRO ATO

(Penumbra Verônica está só no palco, Veste um traje longo, esvoaçante e branco, seus cabelos estão soltos e cheios de flores. É uma figura muito delicada. Anda de um lado para outro, lentamente. Sua expressão é de loucura suave. Traz nas mãos um alaúde, o qual toca desafinadamente. Canta com voz rouca uma canção sem melodia: Canção de Ofélia, namorada de Hamlet, cena V, ato II – Hamlet).

VERÔNICA (Entoando) – Nunca mais o veremos?   Não mais voltará? Sumiu deste mundo,  Baixai para o fundo, Que ele não voltará.

(Ela continua repetindo alucinadamente estas frases. Desafinando com o alaúde. Às vezes rodopia leve, como fantasma)

Sumiu deste mundo,  Não mais voltará.

(Ouve-se um ruído de motor. Um carro estaciona, Ela para, assustada, acende a luz rapidamente, rói as unhas. Está apavorada com a chegada de Marcelo. Olha-se no espelho, ajeita as flores no cabelo. Faz uma careta sensual, como uma menina treinando uma pose sexy. Os passos vão se tornando próximos, ela morde os lábios).

MARCELO: (Entrando bruscamente) Oi… (Olha o traje) Ofélia de  novo? (Ela assente com a cabeça. Está muito agitada e parece uma menina envergonhada que esconde alguma coisa. Corre a beijá-lo no rosto. Ele é frio e não retribui ao beijo. Ela finge não notar a indiferença dele. Rodopia suavemente e pega o alaúde).

VERÔNICA: Estou bonita de Ofélia?

MARCELO: (Balança a cabeça. Continua com ar preocupado e indiferente). Mais ou menos…

VERÔNICA: Alguma coisa contra Ofélia, Cavalheiro? (Gentil suave).

MARCELO: Contra Ofélia? Não. (Ele deposita a capa e o guarda- chuva sobre a mesa. Parece prestes a dizer alguma coisa de muito importante. Olha para ela, que continua fazendo gestos lentos, imitando uma donzela antiga, graciosamente). Eu não vinha aqui hoje. Mas eu precisava falar com você. (Ao ouvir isto ela para com a brincadeira. Vê-se que está com medo. Rói as unhas). Suponho que a senhorita já saiba… já saiba do que se trata. Não é, Dona Verônica? (Ele ironiza e sorri, ainda muito curioso; Ela assente com a cabeça jogando os longos cabelos para frente).

VERÔNICA: (Tentando desviar o assunto de que ele ameaça falar) Depois, tá? Depois você fala, bronqueia, tudo o que quiser. (Rodopia) Fala a verdade. Não fico linda de Ofélia?

MARCELO: (Sentando-se na cama vagarosamente) Se o Shakespeare te visse… tinha um enfarte. (Som, levemente irônico, mas com um ar paternal). Você parece mais a avó da Ofélia. Está estragando a personagem. (Acende um cigarro. Ela continua rodopiando, leve e infantil).

VERÔNICA: (Recitando suavemente) Que nobre inteligência assim perdida! O olho do cortesão, a língua e o braço do sábio e do guerreiro, a mais florida esperança do Estado… O próprio exemplo de educação, o espelho da elegância…

MARCELO: (Interrompendo) Quantos litros de uísque você entornou  desde o (Ironiza) “ocorrido”?

VERÔNICA: (Parando de recitar) Eu? (Finge espanto) Eu?!

MARCELO: Você sim. Quantos litros de uísque? Vamos lá…

VERÔNICA: Nenhum… (Ri) Nenhum, imagine. Por que você pergunta isto?

MARCELO: Basta olhar para suas olheiras…

VERÔNICA: (Zombeteira ainda; olhando-se no espelho) Não estou vendo olheira nenhuma… (Olha novamente. Graciosa e irônica, começa a examinar detidamente os olhos). Nenhuma mesmo. Engraçado! (Aproxima- se dele) Onde você viu olheiras em mim? Meu Marcelo… Está vendo coisa… (Tenta seduzi-lo, aproximando o rosto bem próximo ao dele),

MARCELO: É só lavar essa maquiagem pesada e você enxerga. Lava a cara e depois vem sentar aqui, direitinho, que eu preciso conversar sério com você. Certo?

VERÔNICA: (Olhando-o assustada. Morde os lábios. Senta-se ao lado dele) Você… não vai brigar comigo, vai?

MARCELO: Não. Vou apenas colocar tudo em pratos limpos.

VERÔNICA: (Levanta-se, andando de um lado para outro, Agitada) Sei que você está uma onça. (Ri) Eu sei… Mas olha… eu… eu estava fora de   mim. Completamente fora de mim…

MARCELO: Isto não justifica nada, menina.

VERÔNICA: Eu não sabia direito o que estava fazendo.

MARCELO: Você NUNCA sabe direito o que está fazendo. VERÔNICA: Aquele dia principalmente…

MARCELO: Que é que te deu na telha de…

VERÔNICA: Não sei, não me pergunte… (Tapa o rosto, teatral). Não quero falar nisto. Eu já disse. Eu estava fora de mim.

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Para ler o texto na íntegra, acesse aqui.

Sonhos de uma noite de verão

 

Montagem do Teatro São Pedro, foto disponível aqui.

 

Sabe uma história na qual as tramas vão sendo criadas por meio de confusões? Pois é, essa é uma delas.

Para quem nunca leu uma peça de Shakespeare pode ser que no começo tenha alguma dificuldade com o texto, que é escrito em uma linguagem pouco usual, afinal foi escrito há vários séculos, o que faz com que sejam outras as palavras e as composições das frases. Mas quando você passa deste momento de incomodo e se propõe a imaginar e observar a beleza do que é proposto, é puro deleite!

Com direito a personagens do mundo das fadas e muitos amores que provocam dor e alegria, essa peça é leve e divertida. Leia um trecho do início da peça e aproveite para imaginar como ela poderia ser encenada. Para ler toda a peça, acesse este link

Apresentação da companhia Novelo, foto disponível aqui 

 

“LISANDRO – Então, minha querida, por que as faces tão pálidas assim? Qual o motivo de murcharem tão rápido essas rosas?

HÉRMIA – Talvez por falta da água que lhes viesse da tempestade dos meus próprios olhos.

LISANDRO – Oh Deus! Por tudo quanto tenho lido ou das lendas e histórias escutado, em tempo algum teve um tranquilo curso o verdadeiro amor. Ou era grande do sangue a diferença…

HÉRMIA – Oh sofrimento! Nascer no alto e aceitar o cativeiro!

LISANDRO – … ou mui disparatadas as idades…

HÉRMIA – Oh dor! Unir-se a mocidade às cãs!

LISANDRO – … ou tudo os pais, sozinhos, decidiam…

HÉRMIA – Não há maior inferno: estranhos olhos para escolher o amor!

LISANDRO – … ou, quando havia simpatia na escolha, a guerra, as doenças, e a morte, conjuradas, o assaltavam, qual simples som deixando-o, transitório, tão curto corno um sonho, movediço como uma sombra instável, tão ligeiro como raio de noite tempestuosa que, de súbito, rasga o céu e a terra, mas que antes de podermos dizer “Vede!” pelas fauces das trevas é tragado. Tudo o que brilha, assim, em ruína acaba.

HÉRMIA – Se sempre contrariados foram todos os amantes sinceros, é que o próprio destino o determina desse modo. Que nos ensine, pois, a ser pacientes a nossa provação, já que é desdita fatal dos namorados, como os sonhos, pensamentos, suspiros, dores, lágrimas, do pobre amor são companheiros certos.

LISANDRO – Isso consola. Porém, Hérmia, escuta-me: a sete léguas, só, de Atenas mora minha tia, uma viúva muito rica que, por filhos não ter, me considera seu herdeiro exclusivo. Em casa dela, minha Hérmia encantadora, poderemos casar-nos, por ficarmos, então, fora das rigorosas leis dos atenienses. Se me amas, foge da mansão paterna na noite de amanhã. No bosquezinho a uma légua distante da cidade deverás encontrar-me, justamente onde uma vez te vi em companhia de Helena a realizar os sacros ritos de uma manhã de maio.

HÉRMIA – Meu bondoso Lisandro, eu juro pelo mais potente arco do deus Cupido, por sua seta melhor de penas de ouro, pelas meigas pombas de Vênus, pelo que une as almas e confere ao amor virentes palmas, pelas chamas em que se abrasou Dido após abandoná-la o Teucro infido, pelas juras que a todos os instantes violado têm os homens inconstantes, mais do que numerosas, infinitas, do que as que foram por mulheres ditas: amanhã, sem faltar, no grato abrigo de que falamos, estarei contigo.

LISANDRO – Não faltes à palavra. Aí vem Helena.”

Édipo em Colono

Édipo é famoso por muitos motivos e você poderá saber sobre o primeiro livro da trilogia de Sófocles, chamada Trilogia Tebana, lendo este post.

Édipo em Colono é continuação de Édipo Rei e irá narrar as desventuras de Édipo depois da tragédia que faz com que morra Jocasta e ele fique cego.

Édipo vai embora de Tebas e acompanhamos seu sofrimento, assim como Antígona, sua filha.

A presença dos deuses e do destino se faz evidente nesta peça, assim como nas demais da trilogia.

Vemos também a relação de pai e filha, a força de ambos em manter a dignidade, apesar das inúmeras provações pelas quais passam.

ÉDIPO em COLONO, de Jean-Antoine-Théodore Giroust.

No momento da morte de Édipo, Antígona fala:

“Ele morreu em solo estranho de acordo com sua própria vontade. Seu leito está oculto para sempre e ao nosso luto não faltarão lágrimas. Meus olhos, pai, não param de chorar sentidamente, e não sei – ai de mim! Se terá fim esta tristeza imensa que me deixaste. Querias morrer em solo estranho, mas, por que morreste assim, tão só, longe dos meus cuidados?”

Ainda que o texto nos apresente situações e crenças de um período e uma região da civilização humana, nos fala de sentimentos e conflitos vividos por todos nós.

Dois perdidos numa noite suja

Montagem com Plínio Marcos

“Escrita e estreada em 1966, em São Paulo, no Bar Ponto de Encontro, transferindo-se em seguida para o Teatro de Arena, SP. Estreia no Rio de Janeiro em 1967.Na temporada no Teatro de Arena, SP, em 1967, Ademir Rocha foi substituído por Berilo Faccio. Ainda nesse ano, a mesma montagem se apresentou no Teatro da Rua (Rua Augusta, 2203, SP), como a primeira parte de um programa duplo, cuja segunda parte era Zoo Story, de Edward Albee. DOIS PERDIDOS NUMA NOITE SUJA é uma das peças mais montadas do autor. Foi também encenada na França, na Alemanha, na Inglaterra, nos Estados Unidos, em Cuba, além de adaptações para  cinema.”

Esta explicação sobre a peça, assim como outras sobre a obra de Plínio Marcos pode ser vista no site www.pliniomarcos.com.

A Enciclopédia do Itaú Cultural define o autor da seguinte forma: Plínio Marcos de Barros (Santos, São Paulo, 1935 – São Paulo, São Paulo, 1999). Autor. Renovador dos padrões dramatúrgicos, através de enfoque quase naturalista que imprime aos diálogos e situações, sempre cortantes e carregados de gírias de personagens oriundas das camadas sociais periféricas, torna o palco, a partir dos anos 1960, uma feroz arena de luta entre indivíduos sob situações de subdesenvolvimento.

Esta peça é um permanente embate. Os dois personagens Tonho e Paco nos colocam perante o sofrimento da miséria que só vai se intensificando com o decorrer das cenas. A miséria apresentada por Plínio Marcos não é somente a falta de dinheiro, mas falta possibilidades, falta educação, falta sonhos, falta afeto.

O que vemos de sobra é a capacidade do autor em lidar poeticamente com este mundo para o qual pouco se quer olhar e menos ainda viver, mas um espaço que ainda permanece nos cortiços e barracos de nosso país.

Leia o começo da peça para aguçar tua vontade de continuar:

Montagem do grupo gaúcho de teatro Loucos de Palco

Um quarto de hospedaria de última categoria, onde se vêem duas camas bem velhas, caixotes improvisando cadeiras, roupas espalhadas etc.

Nas paredes estão colados recortes, fotografias de time de futebol e de mulheres nuas.

I ATO

Primeiro Quadro

(Paco está deitado em uma das camas. Toca muito mal uma gaita. De vez em quando, pára de tocar, olha para seus pés, que estão calçados com um lindo par de sapatos, completamente em desacordo com sua roupa. Com a manga dó paletó, limpa dos sapatos. Paco está tocando, entra Tonho, que não dá bola para Paco. Vai direto para sua cama, senta-se nela e, com as mãos, a examina.)

TONHO

Ei! Pára de tocar essa droga. (Paco finge que não houve.)

TONHO

(Gritando.) Não escutou o que eu disse? Pára com essa zoeira!

(Paco continua a tocar.)

TONHO

É surdo, desgraçado? (Tonho vai até Paco e o sacode pelos ombros.)

TONHO

Você não escuta a gente falar?

PACO

(Calmo.) Oi, você está aí?

TONHO

Estou aqui para dormir.

PACO

E daí? Quer que eu toque uma canção de ninar?

TONHO

Quero que você não faça barulho.

PACO

Puxa! Por que?

TONHO

Porque eu quero dormir.

PACO

Ainda é cedo.

TONHO

Mas eu já quero dormir.

PACO

Mas não vai conseguir.

TONHO

Quem disse que não?

PACO

As pulgas. Essa estrebaria está assim de pulgas.

TONHO

Disso eu sei. Agora quero que você não me perturbe.

PACO

Poxa! Mas o que você quer?

TONHO

Só quero dormir.

PACO

Então pára de berrar e dorme.

TONHO

Está bem. Mas não se meta a fazer barulho. (Tonho volta para sua cama, Paco recomeça a tocar.)

TONHO

Pára com essa música estúpida! Não entendeu que eu quero silêncio?

PACO

E daí? Você não manda.

TONHO

Quer encrenca? Vai ter! Se soprar mais uma vez essa droga, vou quebrar essa porcaria.

PACO

Estou morrendo de medo.

TONHO

Se duvida, toca esse troço. (Paco sopra a gaita, Tonho pula sobre Paco. Os dois lutam com violência. Tonho leva vantagem e tira a gaita de Paco.)

PACO

Filho-da-puta!

TONHO

Avisei, não escutou, se deu mal.

PACO

Dá essa gaita pra cá.

TONHO

Vem pegar.

PACO

Poxa! Deixa de onda e dá essa merda.

TONHO

Se tem coragem, vem pegar.

PACO

Pra que fazer força? Você vai ter que dormir mesmo.

TONHO

Antes de dormir, jogo essa merda na privada e puxo a bomba.

PACO

Se você fizer isso, eu te apago.

TONHO

Experimenta.

PACO

Se duvida, joga.

TONHO

Jogo. E daí?

PACO

Então joga.

TONHO

Você só tem boca-dura.

PACO

É melhor você me dar essa merda.

TONHO

Não enche o saco.

PACO

Anda logo. Me dá isso.

TONHO

Não vou dar. (Paco pula sobre Tonho. Esse mais uma vez leva vantagem. Joga Paco longe com um empurrão.)

TONHO

Tá vendo, palhaço? Comigo você só entra bem.

PACO

Eu quero minha gaita.

TONHO

Não tem acordo (Pausa)

(Tonho deita-se e Paco fica onde está, olhando Tonho.)

TONHO

Vai ficar aí me invocando?

PACO

Já estou invocado há muito tempo.

TONHO

Poxa! Vê se me esquece, Paco.

PACO

Então me dá a gaita.

TONHO

Você não toca?

PACO

Não vou tocar.

TONHO

Palavra?

PACO

Juro.

TONHO

Então toma. (Tonho joga a gaita na cama de Paco.) Se tocar, já sabe. Pego outra vez e quebro.

(Paco limpa a gaita e a guarda. Olha o sapato, limpa-o com a manga do paletó.)