A peça de Griselda Gambaro nos coloca dentro de uma situação absurda ou no mínimo estranha, na qual um homem vai a uma barbearia e aceita todas as imposições do barbeiro.
No texto de Sara Rojo de la Rosa sobre as obras de Griselda Gambaro ela comenta sobre essa fase ser um momento no qual a dramaturga apresenta “um mundo masculino sem saídas.”
Ao resumir seus comentários, diz: “podemos afirmar que a dramaturgia de Griselda Gambaro, inserida na história latino-americana, assume a problemática do poder com uma enunciação ciente de todos os aspectos: políticos, estéticos, genéricos, etc. Cada linguagem experimentada, cada forma empregada e cada signo utilizado estão relacionados a um projeto estético-teatral com fundamentos políticos. Por isso, quando a produção de Griselda Gambaro é rotulada exclusivamente dentro da linha dos criadores do absurdo europeu, sem se contemplar sua proposta teórica global, restringe-se a análise exclusivamente à forma.”
Esse pequeno trecho mostra um pouco desse poder exercido e da submissão opressora vivida pelo homem. A intensidade nessa forma enxuta, nesse texto curto nos oferece um tanto do que vamos vivendo cotidianamente. De alguma forma sufoca, mas com uma fluidez que te mantem presa ao texto, com vontade de saber da continuidade, do desenrolar e da maneira pela qual esse desfecho será possível.
Ficou com vontade de ler todo o texto, clique aqui e aproveite!
Assisti a montagem de “Escola de Mulheres” escrita por Molière no teatro Polytheama, em uma direção de Clara Carvalho.
No Instagram da diretora, onde você pode saber mais sobre o espetáculo e as próximas apresentações, podemos encontrar o seguinte texto sobre a peça:
“Arnolfo sempre fora o terror dos maridos traídos de Paris, porém decide casar-se. Para ele, a pior coisa que pode lhe acontecer é um dia ser traído. Por isso, educa a jovem Inês para que se torne a esposa “ideal”.
Vivendo num convento desde os quatro anos de idade, Arnolfo garantiu que criassem a jovem na mais absoluta ignorância.
Assim, ao sair do convento, Inês seria a mulher perfeita para ele: burra, obediente e honesta.
No entanto, mesmo ele tendo conseguido moldar a personalidade da jovem da forma como sempre desejou não significa que a vida tomaria o mesmo rumo que ele estava imaginando, afinal, certos acontecimentos são impremeditáveis.
Como em muitas das peças de Molière, as personagens femininas são perspicazes, inteligentes e descobrem como se empoderar mesmo numa circunstância a princípio desfavorável o que torna o plano de Arnolfo muito difícil de implementar.
Num gesto de transgressão ao patriarcado e ao conservadorismo, Molière (1622 – 1673) traz à tona, com muita ironia, leveza e elegância, a sagacidade feminina em Escola de Mulheres.”
O texto é bom demais, o que explica o fato de um autor que viveu há 400 anos continuar sendo lido e suas peças serem montadas. É divertido e leve!
Eu gostei da montagem! Os atores são bons, existe uma dinâmica, um ritmo que faz com que a gente permaneça envolvido todo o tempo.
O cenário e a iluminação têm a qualidade de estarem em harmonia, possibilitam boas soluções e não roubam a cena. O figurino tem a qualidade de fazer referências à época, mas trazer elementos atuais que nos aproximam da trama.
Não sei se gosto da solução escolhida para a personagem da Inês, acho um pouco sem vitalidade, o que pode ser uma referência a maneira pela qual ela vai se apoderando da situação, discreta, mas certeira.
Os dois personagens masculinos centrais são muito bem interpretados. Não há dúvida de que vale seu tempo!
“Em ‘Enquanto você voava, eu criava raízes’ nenhuma palavra é dita, a dramaturgia é guiada pelos corpos em diálogo com as artes visuais, o cinema, a dança e o teatro. Nesse navegar por várias linguagens, os significados também se apresentam diversos e chegam ao público em camadas múltiplas e plurais. Assim, entre sonho e realidade, somos apenas um emaranhado de sombras e luzes, diante do imensurável, da imensidão e do mistério do abismo.” – trecho da sinopse no catálogo.
Assisti esta apresentação no Sesc Santo Amaro, em São Paulo em abril de 2023. O espetáculo começa e já te coloca no silêncio ao conseguir um escuro completo, sem frestas, que será compreensível por todos os efeitos de luz que são parte estruturante da montagem.
Vagamos, junto dos corpos dos dois atores, em uma caixa mágica que cria uma alteração da nossa percepção espacial, rompendo a linha da terra em um diálogo entre os dois, o céu e as profundezas.
Você poderia pensar que todos estes recursos técnicos e os efeitos são o que há de mais impactante nesta apresentação, mas não! O trabalho corporal de cada um dos dois é impressionante e o que eles criam poeticamente é lindo.
Fica de olho, acompanhe a dupla no Instagram e vá na próxima apresentação.
Direção, dramaturgia, cenografia e performance: André Curti e Artur Luanda Ribeiro
Música original: Federico Puppi
Iluminação: Artur Luanda Ribeiro
Cinotécnica: Jessé Natan
Anton Tchekhov é o autor desta peça e de outras 13, além de muitos contos e alguns ensaios. Encenada pela primeira vez em 1899 pelo Teatro de Arte de Moscou, “Tio Vania” é uma narrativa que acontece na Rússia czarista, em uma casa no campo e mostra as relações familiares ao redor do protagonista que leva o título.
Para além das relações, sempre complexas, como costumam ser as famílias, Tchekhov nos fala das frustrações pelo não vivido. Ao menos para mim foi o mais marcante nessa peça que apresenta tantos personagens enredados em suas teias de impossibilidades.
Os motivos são diversos, a idade, a falta de dinheiro, a permanência na cidade pequena, a falta de beleza ou as escolhas malfeitas.
Cada qual em sua insatisfação buscando uma solução possível, e improvável, que minimize a frustração pelo que não foi possível até então.
Uma descrição tão pessimista pode parecer que não vale a pena, mas vale sim! O texto é ótimo e as cenas que podem ser imaginadas são fortes.
Fotos deste post são de Guto Muniz da montagem do Grupo Galpão
Mas se você acredita que ler um texto de mais de um século é difícil demais, tenho uma boa notícia! Leia a versão em quadrinhos da Editora Peirópolis!
Os quadrinhos são ótimos, feitos pelo Caco Galhardo, com os personagens dele, já bastante conhecidos pelas tirinhas do jornal. É muito interessante ver a interpretação dos personagens dos quadrinhos para os personagens da peça! Contando desta forma parece confuso, mas é uma delícia de ler.
Faz parte da coleção “Clássicos em HQ”, que tem vários outros títulos interessantes.
Você escolhe como quer ler, se a versão somente do texto ou se a versão quadrinhos, mas não perca este Tchekhov!
Ao entrar no teatro as duas atrizes, Elis Bráz e Victória Camargo, já estavam em cena, uma delas cantando, um canto e uma voz que ocupava o espaço. Nessa posição que estavam permaneceram, quase sem nenhum deslocamento durante todo o espetáculo. Parece estranho, né? E é mesmo, causa um estranhamento, mas é bom.
Passei por diferentes sensações no decorrer de toda a apresentação e não tenho dúvida de que o texto, os diálogos, os confrontos entre as personagens, que são de uma terra longínqua, são também nossos.
São de qualquer mulher, seja pelas violências sofridas com mais ou menos intensidade, ou seja pelo medo que carregamos com relação aos filhos e filhas desde que eles passam a existir nas nossas vidas. Mas são também dos homens, de qualquer pessoa que viva esse mundo cheio de conflitos que se renovam em uma dificuldade de diálogo que se renova em todas as épocas.
O texto e todo o contexto que ele apresenta dão margem a muitas conversas, mas o que mais me encantou foi a proposta de encenação e o trabalho das atrizes. Sou alguém que gosta de movimento e uma peça com tão pouco deslocamento poderia significar falta de movimento. Mas não!
O movimento se vê nos detalhes, na tensão que muda de intensidade e se retrata nas muitas expressões que vão traduzindo o texto dito de forma intensa, com a qualidade dos tons que apresentam inúmeras gamas. É encantador ver o que cada uma das atrizes consegue expressar somente com seu corpo, seu rosto, sua voz. Para quem gosta de ver uma boa atriz em cena, nesta peça você vai se deliciar.
Termino esse texto com uma citação do Léo Lama, retirada de seu Instagram, no qual ele pondera sobre a importância da imaginação e o papel do teatro para que ela seja ativada.
“TEATRO COMO FORMA DE PRESENÇA HUMANA. O discernimento é pauta essencial para a educação. Saber discernir entre o que é construtivo e o que é destrutivo é condição básica para um bom ensino. Em contato com exemplos edificantes ou com jornadas trágicas que possam nos sensibilizar, muito mais do que com os dogmas, as lições de moral, os sermões, podemos aprender melhor, sem didatismo. Assim o teatro se insere. A arte traz reflexão, sensibilização, abre porta para a criatividade. E toda criação vocacionada muda o mundo. O teatro é a arte da presença humana e da escuta, em tempos de virtualidade exacerbada e excessivo bombardeio visual. A verdadeira arte ativa a imaginação dentro de cada um de nós, criando interação e presença, sem que recebamos tudo pronto como uma tirania estética de passividade. O teatro é um curativo, uma necessidade. Penso.”
Fique de olho e não perca quando estiver em cartaz na tua cidade!
Texto e direção: Leo Lama
Assistência de direção: Amanda Mantovani
Produção: Aline Volpi
Elenco: Elis Bráz e Victória Camargo
Foto: Leo Lama
Esta proposta busca explorar a flexibilidade corporal, fazendo com que cada parte do corpo vá ficando cada vez mais flexível e menos tensa, chegando ao ponto de um relaxamento completo.
A proposta inicia com o grupo caminhando e a cada momento da caminhada, o professor dá um comando de que uma parte do corpo virou uma gelatina. Neste primeiro momento espera-se que as pessoas tenham cada vez mais dificuldade de caminhar, conforme as partes do corpo vão sendo nomeadas.
Aos poucos será impossível seguir caminhando e cada um terá que deitar no chão, porém mesmo deitados será possível seguir nomeando as partes do corpo para que possam relaxar ainda mais.
No decorrer desta proposta é interessante falar partes isoladas e detalhadas, como por exemplo: o dedo anular da mão esquerda, as costelas do lado direito, o queixo, etc.. Ao falarmos as diferentes partes do corpo permitimos que cada um se torne mais consciente de cada uma delas e busque movimentar somente esta parte, permitindo um maior domínio corporal.
A proposta pode terminar com todos relaxados no chão ou depois de um tempo de relaxamento, as partes podem ser nomeadas para serem revigoradas, até que todos voltem a caminhar.
Esta proposta pode ser feita com maior detalhamento no momento de relaxar ou o contrário. Das duas maneiras será possibilitado a consciência corporal.
Consuelo de Castro escreveu esta peça em 1969, há mais de 50 anos e a distância que nos separa do momento da escrita pode nos fazer pensar se é um texto que permanece atual, se vale a pena ser lido ou não.
A peça apresenta um casal, em três atos e não há dúvida de que parte dos conflitos apresentados não teriam as mesmas características, ao menos para grande parte das pessoas que vivem atualmente no Brasil e em boa parte do mundo.
A ideia de casamento foi questionada de lá para cá, o divórcio virou fato, ainda que tenha sido somente em 1977 sua aprovação, atualmente ninguém comenta de forma disfarçada o fato de uma mulher ser desquitada ou separada, como acontecia na década de 70.
Apesar das mudanças, muita coisa continua atual: um relacionamento desigual, o homem muito mais velho que a mulher, um ciúme possessivo e o medo da perda doentio.
Registro fotográfico Rodrigo Whitaker Salles
Mas para além do que a peça aborda, o que encanta é a intensidade das cenas, a dramaticidade envolvente.
Yan Michalski na Pequena enciclopédia do teatro brasileiro contemporâneo, fala sobre a autora:
Consuelo de Castro
“Representante destacada da brilhante geração de dramaturgos surgida sob a ditadura, Consuelo de Castro é, entre os autores dessa geração, talvez a que possui o corpo de obra mais volumoso e diversificado. Em comum com os outros, ela tem o sentimento de inconformismo e indignação que perpassa tudo que ela escreve. O que a distingue dos outros é a sua excepcionalmente visceral noção de teatralidade, um diálogo notavelmente colorido, que ela cria com uma espantosa espontaneidade, e uma inquietação que a faz partir sempre em busca de novos caminhos”.
Se ainda não te convenci a ler, leia o pedaço de uma cena e veja se a peça te convence:
ÀFLORDAPELE
CONSUELO DE CASTRO
CENÁRIO
Sala única de um apartamento. Móveis modernos e simples. Há uma aparência de completo desleixo. Quadros fora do lugar, garrafas empilhadas no chão, etc. Uma estante de livros. Uma vitrola. Acima da estante aglomeram-se posters coloridos, uma bandeira preta com os dizeres: “Seja realista; peça o impossível”. À direita, um sofá-cama aberto, com lençóis em desalinho. No centro do ambiente, uma mesa e duas cadeiras. Sobre a mesa há uma máquina de escrever, cinzeiros, jornais, livros, copos, uma caveira, tudo na mais perfeita desordem, À esquerda, um armário cheio de roupas de uso próprio e roupas de cena.
PERSONAGENS
VERÔNICA: A aluna. Vinte e um anos. Nostalgia da ordem.
MARCELO: O professor. Mais ou menos quarenta e três anos. Desespero da ordem.
PRIMEIRO ATO
(Penumbra – Verônica está só no palco, Veste um traje longo, esvoaçante e branco, seus cabelos estão soltos e cheios de flores. É uma figura muito delicada. Anda de um lado para outro, lentamente. Sua expressão é de loucura suave. Traz nas mãos um alaúde, o qual toca desafinadamente. Canta com voz rouca uma canção sem melodia: Canção de Ofélia, namorada de Hamlet, cena V, ato II – Hamlet).
VERÔNICA (Entoando) – Nunca mais o veremos? Não mais voltará? Sumiu deste mundo, Baixai para o fundo, Que ele não voltará.
(Ela continua repetindo alucinadamente estas frases. Desafinando com o alaúde. Às vezes rodopia leve, como fantasma)
Sumiu deste mundo, Não mais voltará.
(Ouve-se um ruído de motor. Um carro estaciona, Ela para, assustada, acende a luz rapidamente, rói as unhas. Está apavorada com a chegada de Marcelo. Olha-se no espelho, ajeita as flores no cabelo. Faz uma careta sensual, como uma menina treinando uma pose sexy. Os passos vão se tornando próximos, ela morde os lábios).
MARCELO: (Entrando bruscamente) Oi… (Olha o traje) Ofélia de novo? (Ela assente com a cabeça. Está muito agitada e parece uma menina envergonhada que esconde alguma coisa. Corre a beijá-lo no rosto. Ele é frio e não retribui ao beijo. Ela finge não notar a indiferença dele. Rodopia suavemente e pega o alaúde).
VERÔNICA: Estou bonita de Ofélia?
MARCELO: (Balança a cabeça. Continua com ar preocupado e indiferente). Mais ou menos…
VERÔNICA: Alguma coisa contra Ofélia, Cavalheiro? (Gentil suave).
MARCELO: Contra Ofélia? Não. (Ele deposita a capa e o guarda- chuva sobre a mesa. Parece prestes a dizer alguma coisa de muito importante. Olha para ela, que continua fazendo gestos lentos, imitando uma donzela antiga, graciosamente). Eu não vinha aqui hoje. Mas eu precisava falar com você. (Ao ouvir isto ela para com a brincadeira. Vê-se que está com medo. Rói as unhas). Suponho que a senhorita já saiba… já saiba do que se trata. Não é, Dona Verônica? (Ele ironiza e sorri, ainda muito curioso; Ela assente com a cabeça jogando os longos cabelos para frente).
VERÔNICA: (Tentando desviar o assunto de que ele ameaça falar) Depois, tá? Depois você fala, bronqueia, tudo o que quiser. (Rodopia) Fala a verdade. Não fico linda de Ofélia?
MARCELO: (Sentando-se na cama vagarosamente) Se o Shakespeare te visse… tinha um enfarte. (Som, levemente irônico, mas com um ar paternal). Você parece mais a avó da Ofélia. Está estragando a personagem. (Acende um cigarro. Ela continua rodopiando, leve e infantil).
VERÔNICA: (Recitando suavemente) Que nobre inteligência assim perdida! O olho do cortesão, a língua e o braço do sábio e do guerreiro, a mais florida esperança do Estado… O próprio exemplo de educação, o espelho da elegância…
MARCELO: (Interrompendo) Quantos litros de uísque você entornou desde o (Ironiza) “ocorrido”?
VERÔNICA: (Parando de recitar) Eu? (Finge espanto) Eu?!
MARCELO: Você sim. Quantos litros de uísque? Vamos lá…
VERÔNICA: Nenhum… (Ri) Nenhum, imagine. Por que você pergunta isto?
MARCELO: Basta olhar para suas olheiras…
VERÔNICA: (Zombeteira ainda; olhando-se no espelho) Não estou vendo olheira nenhuma… (Olha novamente. Graciosa e irônica, começa a examinar detidamente os olhos). Nenhuma mesmo. Engraçado! (Aproxima- se dele) Onde você viu olheiras em mim? Meu Marcelo… Está vendo coisa… (Tenta seduzi-lo, aproximando o rosto bem próximo ao dele),
MARCELO: É só lavar essa maquiagem pesada e você enxerga. Lava a cara e depois vem sentar aqui, direitinho, que eu preciso conversar sério com você. Certo?
VERÔNICA: (Olhando-o assustada. Morde os lábios. Senta-se ao lado dele) Você… não vai brigar comigo, vai?
MARCELO: Não. Vou apenas colocar tudo em pratos limpos.
VERÔNICA: (Levanta-se, andando de um lado para outro, Agitada) Sei que você está uma onça. (Ri) Eu sei… Mas olha… eu… eu estava fora de mim. Completamente fora de mim…
MARCELO: Isto não justifica nada, menina.
VERÔNICA: Eu não sabia direito o que estava fazendo.
MARCELO: Você NUNCA sabe direito o que está fazendo. VERÔNICA: Aquele dia principalmente…
MARCELO: Que é que te deu na telha de…
VERÔNICA: Não sei, não me pergunte… (Tapa o rosto, teatral). Não quero falar nisto. Eu já disse. Eu estava fora de mim.
Assisti “A Pane” no SESC Jundiaí no começo de outubro e, embora o elenco já fosse promissor, a peça me surpreendeu positivamente.
“Uma comédia sobre a justiça. Hóspede inesperado se transforma em réu de um jogo em que juiz, promotor, advogado e carrasco aposentados revivem suas profissões. Uma fábula que fala dos nossos dias.”
Uma situação surreal que vai mostrando diferentes facetas sobre a justiça e sobre os desejos humanos. As mudanças vividas por todos os personagens, mas especialmente pelo Traps, hóspede que se propõe a participar deste julgamento e que vai se transformando e acreditando nas diferentes versões dele mesmo, apresentadas no decorrer do processo.
Esta situação surreal retrata as inúmeras possibilidades de manipulação da justiça em suas leituras da realidade.
Além do texto genial, a proposta de encenação é linda, com cenário de Anne Cerrutti e luz de Wagner Pinto que dialogam com a direção, encontrando a condição desejada de integração na qual a cena se beneficia.
Os atores se movimentam em uma coreografia bem desenhada, sem que se torne robótica, aliás nada mais humano do que a escolha de um dos atores atuar também como ponto, sendo a memória necessária para vermos em cena tantos bons atores poderem oferecer o melhor de si.
Não encontrei a previsão das próximas apresentações, mas você pode acompanhar o trabalho seguindo o grupo no Instagram: @paneteatro. Se puder, assista!
Texto: Friedrich Dürrenmatt.
Com: Antonio Petrin, Cesar Baccan, Heitor Goldflus, Marcelo Ullmann, Oswaldo Mendes e Roberto Ascar.
Direção: Malú Bazán.
Foto: Rogerio Alves.
As imagens deste post foram retiradas do instagram do grupo
Para a maior parte das pessoas que não trabalha com teatro, a concepção a respeito do ensaio teatral é de ser uma ação que permite a elaboração de uma peça, a criação das cenas e culmina na apresentação do espetáculo pronto.
Sim, o ensaio é tudo isso mesmo!
Mas, quando pensamos em teatro nos espaços educativos, será que é a mesma coisa que no teatro profissional?
A primeira pergunta a nos fazermos é se na educação, o teatro precisa sempre resultar em uma apresentação? A resposta para essa pergunta não é uma só, pois depende da faixa etária, do propósito, do contexto no qual o teatro foi inserido. Nem sempre precisa resultar em uma apresentação, mas é muito interessante que resulte, principalmente quando estamos falando de crianças e jovens de mais de 10 anos.
Foto de Cottonbro no Pexels
Então o ensaio, nesta situação, terá como propósito criar a apresentação e fazer com que os alunos não fiquem perdidos no momento que estão em frente a uma plateia?
Sim e não! Sim porque o ensaio será o momento para a elaboração da peça e para que todos tenham segurança de poder apresentar seu trabalho para uma plateia. Não porque o ensaio é também o momento de criação e de aprendizagem.
Precisamos lembrar que nos espaços educativos o foco principal é a aprendizagem e que a apresentação será o resultado do que foi possível aprender.
Isso não significa que não devemos nos preocupar com a apresentação, pois a apresentação faz parte das aprendizagens da linguagem teatral, mas o ensaio não pode estar somente preocupado com a apresentação, pois desta maneira estaríamos invertendo as prioridades.
O ensaio nos ensina a relação com o público, ensina a repetir sem ficar sem graça, a descobrir a melhor maneira de encenar, justamente pela busca dentro da repetição que vai recriando e aperfeiçoando. É no ensaio também que o grupo se fortalece como tal e fica pronto para mostrar seus aprendizados em forma de cena teatral.
Entender o que é fazer teatro pode ser difícil, mas quando juntamos a isso a compreensão do que pode ser teatro na Educação Infantil, o meio de campo acaba de embolar!
Aproveito para este post um trecho do texto da Marina Marcondes Machado, que você pode ler na íntegra acessando este link e abrindo o livro Percursos de Aprendizagem: Práticas Teatrais.
Neste texto Marina irá relacionar o teatro para esta faixa etária com o teatro pós-dramático. Ela diz:
“Quando a criança está brincando de faz de conta, ela é dissimulada? Mentirosa? Ilusionista? O leitor atento, que acompanhou os capítulos anteriores, responderá: “não”. Mas o que está acontecendo, então, com a criança no momento em que brinca de faz de conta? Há quem diga, como Sarmento, que a expressão “faz de conta” é inadequada para essa conduta da criança, uma vez que todo observador mais cuidadoso sabe quão verdadeira é aquela narrativa, cena do cotidiano, drama ou conflito. Existe, sim, algo no faz de conta que Artaud defendeu em sua estética, a mesma energia/sinergia que os encenadores contemporâneos pretendem, inclusive, resgatar no corpo do ator-performer.
O professor leigo não precisa ocupar-se das minúcias deste debate, mas deve estar atento para uma nova forma de teatro que surgiu a partir das décadas de 60 e 70, onde a linearidade aristotélica, do tempo do começo-meio-e-fim, não se faz mais presente ou necessária. Isso aconteceu também no cinema: quem não assistiu ao menos a um filme que se recusou a acabar, ou seja, que deixou “em aberto” o final da história que contava?
E se artistas profissionais estão praticando um tipo de linguagem mais “caótica”, desorganizada do ponto de vista realista, com cenas sobrepostas, ou ainda, apresentando músicas e ruídos concomitantes, interposto a um silêncio cortante, como e por que um professor de crianças precisaria ater-se a um teatro que representasse “Chapeuzinho Vermelho”, “Os Três Porquinhos”, ou “Os Três Reis Magos” com a proximidade do final do ano? E o que seria trabalhar de “outro modo”, na chave do teatro pós-dramático?”
Neste texto, Marina nos dá uma pista sobre um dos aspectos do teatro da primeira infância: ele não precisa contar uma história de forma linear! Os pequenos e pequenas podem brincar com idas e vindas no tempo, sem uma narrativa que parta de um ponto definido e que tenha uma sequência de ações, uma consequência da outra para chegar ao final.
O teatro da educação infantil pode ser caótico, pode não ter fim, pode ter muitas vezes a mesma experimentação, como uma cena em looping que se repete de várias maneiras ou da mesma incontáveis vezes.
Quem nunca contou a mesma história para uma criança e ao terminar ouviu: de novo! Dar oportunidade para este de novo na experiência teatral é um dos aspectos a ser garantido na Educação Infantil.